#184 — A arte do consentimento
"A tarefa de um filósofo: nós devemos deixar nossa vontade em harmonia com o que vier a acontecer, então nada que acontecerá estará contra nossa vontade e nada que desejemos falhará em acontecer."
— Epictetus
Epictetus retorna a um ponto que Sêneca já levantou:
nada que acontece ao sábio é contrário às suas expectativas.
Você não pode impor sua vontade ao mundo, não pode impedir que as coisas aconteçam, mas pode se ver como uma pessoa afortunada o suficiente para receber o que o mundo lhe dá e responder à vontade do mundo. (Até porque o mundo tem mais coisas com que se preocupar do que responder à sua vontade).
Trânsito. Sempre uma boa chance de perder a cabeça e sentar a mão na buzina. Você não pode impedir os engarrafamentos e se a vontade do mundo é que você fique preso no tráfego, responda de uma forma menos agressiva. Ponha uma música e relaxe.
O carro morreu na garagem? Olha só, você não vai precisar dirigir hoje! Posso ouvir você dizendo: "Mas e depois o problema para resolver isso?!" Depois você faz a ligação para que um mecânico venha ver qual o problema. "Mas vai sair caro consertar!",
se você comprou um carro, você sabia dos problemas que poderiam acompanhar a compra.
Sempre que as coisas acontecerem de forma diferente do que você planejou, você tem duas opções:
1. Criar um problema e agir como uma criança mimada, ou
2. Agir como um filósofo e ver tudo o que aconteceu como estando de acordo com sua vontade.
O mundo não vai ser curvar aos seus desejos, você que tem que fazer o melhor com o que lhe foi dado.
Aplicação pessoal
Thomas Jefferson era uma pessoa quieta e reservada — e alegava-se que ele tinha um impedimento na fala. Ou seja, para um presidente, ele era um orador terrível. Jefferson tinha duas opções: lutar contra a situação, ou aceitá-la.
Jefferson escolheu abraçar seu impedimento e canalizar sua energia em outra forma de expressão: a escrita. Ele, então, se tornou um dos maiores escritores que o país já viu. E escreveu um dos documentos mais importantes dos EUA, a declaração da independência.
Helen Keller era cega e surda. Aceitar essas condições foi o que permitiu que ela desenvolvesse suas habilidades e se tornasse uma grande escritora. Ela não tentou superar as deficiências, sua professora, Anne Sullivan, encontrou uma forma de ajudá-la interpretar a realidade apesar delas.
"Mas eu não posso desistir! Se fosse eles, eu lutaria! Desistir não é o fim de tudo?" Você sabe que não é a única pessoa que tem que aceitar aquilo que não gosta, certo? Consentir é algo que faz parte da vida humana e, às vezes, lutar é apenas um desperdício de energia.
Se o médico mandar você usar muletas por dois meses e não forçar a perna direita, você vai lutar contra a opinião dele e arriscar piorar a situação?
Somos gananciosos ao esperar que tudo vai acontecer como nós queremos e, se não acontecer, é um problema, quando, na verdade,
tudo o que acontece pode ser visto de forma benéfica.
Você não precisa gostar de algo para usá-lo a seu favor. E lembre-se que as coisas sempre poderiam ser piores.
@estoicismo | texto por Sabrina A. (2017)