Este é o aprofundamento do vídeo da piscina, o do segundo antes do pulo do Dudu. Se você ainda não viu, comece por ele:
https://www.instagram.com/reel/DeXpmzDgFWj/
No vídeo eu disse que, na beira, a criança olha para você antes de olhar para a água. Aqui vai o estudo que mostra o que acontece nesse olhar, e três detalhes dele que quase ninguém conta.
1. Quem foi medido
Em 2014, pesquisadores da Holanda (Möller, Majdandžić e Bögels, na revista Developmental Science) levaram 81 bebês, entre 10 e 15 meses, a um aparelho chamado precipício visual: uma superfície que parece ter um degrau fundo, mas que é coberta por um vidro seguro. O bebê ficava do lado raso. Do lado fundo, o pai ou a mãe pedia para ele atravessar.
Cada bebê foi com um dos dois. Os pesquisadores registraram a expressão de quem chamava e, no bebê, o quanto ele mostrava ansiedade e o quanto evitava atravessar.
2. O que apareceu
As mães fizeram expressões de incentivo mais intensas do que os pais. Mesmo assim, o incentivo dos pais e das mães não teve relação com a ansiedade ou a esquiva do bebê.
O que teve relação foi a ansiedade que o pai mostrava no rosto. Quanto mais ansioso o pai parecia, mais ansioso o bebê ficava e mais ele evitava atravessar. Com as mães, essa ligação não apareceu.
Ou seja: o que pesou foi o que o rosto de quem estava do outro lado mostrava de medo, e não a quantidade de "vem, você consegue".
3. A parte que quase ninguém conta
Primeiro: o incentivo, sozinho, não mudou nada. Chamar com entusiasmo não fez o bebê atravessar mais fácil. O medo no rosto do adulto fez diferença; a animação, não.
Segundo: o efeito foi mais forte nos bebês de temperamento mais ansioso. Quem se assusta mais fácil é quem mais sente o susto de quem está olhando.
Terceiro: o estudo achou que pai e mãe funcionam de formas diferentes nessa leitura, e ele não diz por quê. Também não mostra causa: ele encontrou uma ligação entre o rosto do pai e o comportamento do bebê. Se o bebê ansioso também deixa o pai mais ansioso, o estudo não separa.
Um cuidado meu com você: foram bebês de um ano num aparelho de laboratório, não uma criança maior numa piscina. Levar isso para a beira da piscina é a leitura que eu faço. E o estudo não aponta culpa em ninguém: ele mostra que a criança lê com quem ela mais confia.
4. O que isso muda hoje
Foi isso que o vídeo mostrou: na hora do pulo, o que o Dudu procura no meu rosto é se tem alguém ali. Empurrar com "vai, pula logo" é incentivo demais e presença de menos. Tirar da beira com "deixa pra lá" passa o recado de que o medo era perigo de verdade.
Antes do próximo "pula", solta o ar, deixa o rosto ficar mole e diz só com o olhar: "estou aqui". (Esta frase é minha, não saiu do estudo.)
Hoje, na próxima beira que a criança encarar, repara no seu rosto antes de reparar na água.
Fonte: Möller, Majdandžić e Bögels, "Fathers' versus mothers' social referencing signals in relation to infant anxiety and avoidance: a visual cliff experiment", Developmental Science, 2014, 17(6):1012-1028 (
doi.org/10.1111/desc.12194, PubMed 24909521).