“Queres vencer os Jogos Olímpicos? Também eu, pelos deuses, pois é uma coisa bela. Mas examina o que antecede e o que segue [tal vitória] e então empreende a ação.”
Epicteto (c. 50-135 d.C.), filósofo estoico, em “Encheirídion”
Ninguém compra ingressos para assistir a um ensaio. O teatro às três da tarde é um lugar sem graça. A luz de serviço acesa, as cadeiras vazias, o cheiro de pó e alguém de moletom repetindo pela quadragésima vez a mesma entrada só porque o pé parou dez centímetros fora da marca confirmam a falta de glamour. Ainda assim, é ali que a estreia acontecerá mais tarde, quando, enfim, se encerrará o enfadonho ciclo de repetições com a última delas, aquela que tem gente olhando, encantada, admirando o resultado. E aplaudindo. Fomos treinados para apreciar esse grande momento. Para o público, nada antes dele importa.
Quase dois mil anos atrás, um rapaz procurou o filósofo Epicteto dizendo que queria ser campeão olímpico. Em vez de aplaudir a ambição, Epicteto retrucou: “Ótimo, eu também quero. Mas é preciso ser disciplinado, submeter-se a regime alimentar, abster-se de guloseimas, exercitar-se obrigatoriamente na hora determinada (tanto no calor como no frio), não beber água gelada nem vinho, mesmo que ocasionalmente. Em suma, confiar-se ao treinador como ao médico. Depois, lançar-se à luta e, por vezes, machucar as mãos, torcer o tornozelo e engolir muita areia.”
Epicteto não estava desencorajando o rapaz. Estava apenas expondo as duas metades que a fantasia esconde. O menino chegou com uma imagem só na cabeça: o pódio, a coroa de louros, o estádio inteiro de pé. Antes dela, porém, existem os anos de dieta, o treino no dia de frio, a obediência sem ninguém olhando. Depois dela, há, ainda, a areia na boca, o tornozelo torcido e a chance concreta de perder assim mesmo. Em resumo, o pódio é a noite de gala, e todo o resto é ensaio.
Há uma cena parecida na Bíblia. Salomão decide erguer o templo de Jerusalém, a maior empreitada do seu reinado. Sete anos de obra. Oitenta mil homens cortando pedra nas montanhas e outros setenta mil carregando ladeira acima. Uma cidade inteira de gente movendo rocha.
O diferencial é que cada bloco era extraído, lavrado e ajustado ali mesmo, na pedreira, a quilômetros do local da construção. Ou seja, tudo chegava pronto ao canteiro de obras. O capítulo 6 do Primeiro Livro dos Reis, versículo 7, registra o resultado numa frase que, para qualquer um que já tenha reformado um banheiro, soa inacreditável: “Não se ouviu martelo, nem talhadeira, nem qualquer outra ferramenta de ferro no local da construção.”
Fica parecendo que tudo fluiu sem problema algum, não é? Nada poderia estar mais distante da verdade. Um canteiro silencioso significa apenas que nenhuma correção precisou ser feita ali porque todas tinham sido feitas antes, nos bastidores, em um trabalho invisível e não reconhecido. Tanto que multidões subiam para ver o prédio pronto, mas, em três mil anos, ninguém jamais organizou uma excursão à pedreira.
Imagino que você já tenha sentido na pele a frustração de ter trabalhado duro nos bastidores sem a devida recompensa no final. Já deve ter passado uma tarde de domingo com a plataforma do Gran aberta, usando assiduamente a ferramenta de anotações, revisando o material pela segunda vez com aquela sensação boa de dever cumprido, mas, na quarta-feira seguinte, ficou surpreso ao não saber a resposta para uma questão sobre aquele exato assunto. O que foi que aconteceu ali?
O psicólogo Robert Bjork, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, dedicou a carreira a encontrar a resposta para essa pergunta. Em 1994, deu nome ao que encontrou: dificuldades desejáveis (em inglês, desirable difficulties). A ideia é relativamente simples: as condições que fazem o estudo render bem na hora – reler, grifar e revisar tudo de uma matéria no mesmo dia – são justamente as que produzem menos memória depois; já as que travam, que fazem você suar e sentir que está indo mal – espaçar as revisões, embaralhar as matérias, fechar o livro e tentar lembrar do que leu sem espiar –, essas, sim,