O Último Arconte ♄
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Canal dedicado ao estudo de temas tradicionais e reflexões pessoais.
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Tarkovsky estava mais que certo, uma das coisas que os tempos modernos trouxeram foi a perda da sensibilidade, em todos os níveis da vida, religioso, artístico, amoroso, etc.. É por essa razão é que difícil encontrar pessoas autênticas, ou você vai encontrar pessoas que não estão nem aí ou larpers.
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a arte desafia os conceitos filosóficos. O poeta não recorre a “descrições” do mundo; ele próprio participa de sua criação. Somente quando uma pessoa está disposta e é capaz de confiar no artista, de acreditar nele, é que pode se tornar sensível e receptiva à arte. Mas como às vezes é difícil ultrapassar o limiar da incompreensão que nos separa da imagem emocional e poética. Da mesma forma, para uma verdadeira fé em Deus, ou mesmo para sentir a necessidade dessa fé, uma pessoa precisa ter uma certa disposição de alma, uma potencialidade espiritual específica.
Quando Moisés chegou ao cume da montanha...
[ele]... foi instruído por meio de palavras sobre aquilo que, anteriormente, havia aprendido na escuridão; creio que isso ocorreu para que a doutrina a esse respeito se tornasse mais sólida para nós, ao ser confirmada pela voz divina. Desde o início, a palavra divina proíbe que o Divino seja comparado a qualquer coisa conhecida pelos homens, visto que todo conceito — derivado de uma imagem compreensível, por meio de uma compreensão aproximada ou de conjecturas sobre a natureza divina — constitui um ídolo de Deus, e não proclama a Deus.— Gregório de Nyssa. Vida de Moisés.
Caminhar sobre as Águas
é um símbolo esotérico, não próprio apenas ao cristianismo, para um determinado significado e para uma determinada condição de existência. Estar sobre as «águas» equivale a estar acima da «torrente das formas», acima do modo de ser das naturezas sujeitas ao devir, compostas de um desejo que lhes altera a vida e as priva de toda estabilidade. Ora, é possível pensar que, em determinadas circunstâncias, a realização integral do significado daquele símbolo por parte de uma personalidade se acompanhe da realização de um poder mágico, o qual confere a possibilidade efetiva de caminhar sobre a água sem afundar, de guisa que o símbolo se transmuta num fato, o qual, por sua vez, é símbolo, e se faz sinal e testemunho iluminador de uma realidade e de uma lei de ordem superior.— Julius Evola. Um Parêntese sobre o Catolicismo Esotérico e o "Tradicionalismo Integral". O Último Arconte
A Razão por vezes é incomoda à sabedoria
Para todo se halla prueba
y razón en que fundarlo;
y no hay razón para nada,
de haber razón para tanto.
Todos son iguales jueces,
y siendo iguales y varios,
no hay quien pueda decidir
cuál es lo más acertado.
Pues si no hay quien lo sentencie
¿por qué pensáis vos, errado,
que os sometió Dios a vos
la decisión de los casos?
¿O por qué, contra vos mismo
severamente inhumano,
entre lo amargo y lo dulce
queréis elegir lo amargo?
Si es mío mi entendimiento
¿por qué siempre he de encontrarlo
tan torpe para el alivio,
tan agudo para el daño?
El discurso es un acero
que sirve por ambos cabos:
de dar muerte, por la punta;
por el pomo, de resguardo.
Si vos, sabiendo el peligro,
queréis por la punta usarlo,
¿qué culpa tiene el acero
del mal uso de la mano?
No es saber, saber hacer
discursos sutiles vanos;
que el saber consiste sólo
en elegir lo más sano.
—Sor Juana Inés de la Cruz. Acusa la hidropesía de mucha ciencia, que teme inútil, aun para saber, y nociva para vivir
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Algumas obras de Mario Abreu, numa esquemática denominada "escritura primordial".
Disponível em: https://loshijosdesiduri.blogspot.com/2014/10/mario-abreu-y-la-accion-simbolica.html
O Último Arconte
Há alguns aforismos dele como "A profundidade não está no que se diz, mas no nível desde o qual se o diga” ou “o escritor não está vocacionado a mudar de solo, mas de nível”, que são muito expedientes para entender as implicaçẽos do que ele disse.
Um dos maiores problemas da modernidade é que ela é lógica, ela tende a identificar e equalizar as coisas e dela surge a dialética, que leva a uma conciliação e até mesmo o paradoxo, quando começa a devorar a si mesma. Mas tudo isso se funda em um pensamento que é avesso ao nível e à hierarquia. O nível é o que permite diversas interpretações verdadeiras de uma coisa, sob diversas perspectivas distintas. Trata-se da afirmação da veracidade da perspectiva e não da coisa, enquanto o pensamento moderno é ligado à veracidade da coisa sob uma perspectiva. A hierarquia, por sua vez, admite elementos heterogêneos inconciliáveis, mas assimiláveis. Já falamos de assimilação aqui.
Vemos alguns flertes com "diferença" ou com o perspectivismo por parte dos pós-modernos, mas é falso. Por trás do falatório deles ainda há o espírito moderno, isto é, os dogmas sobre a natureza que retiram dela todo o seu númen. Assumem várias perspectivas horizontais da coisa, mas nunca verticais, pois é inadmissível para eles que algo tenha profundidade.
O Último Arconte
O Método Hierárquico como Ordenação dos Heterogêneos
Lógica, dialética, paradoxo, hierarquia.// Método lógico, que o princípio de identidade regula. Método dialético, que o princípio de contradição guia. Método paradoxal, obediente ao princípio da coincidência dos contrários. Método hierárquico, que aplica o princípio de ordenação.// O método hierárquico não identifica os termos, nem os absorve, nem os equilibra, mas os ordena.— Nicolás Gómez d'Ávila. Escólios. II.
A totalidade só pode existir dentro de uma ordem hierárquica, porque aí — e somente aí — infinitos termos coexistentes podem perdurar sem se excluírem nem se anularem, caso pertençam a ordens distintas.— Ibid. Notas.
Para que coexistam múltiplos termos diversos, é necessário colocá-los em níveis distintos. // A ordem hierárquica é a única que não expulsa — "o nivelamento é o substituto bárbaro da ordem" — nem suprime.— ibid. Escólios. I. O Último Arconte
A Vida é Sonho!
y sí haremos, pues estamos en mundo tan singular, que el vivir sólo es soñar; y la experiencia me enseña que el hombre que vive, sueña lo que es, hasta despertar. […] Yo sueño que estoy aquí de estas prisiones cargado, y soñé que en otro estado más lisonjero me vi. ¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño; que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son.— Calderón de la Barca. La Vida es Sueño. O Último Arconte
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O grotesco na decoração de Domus Aurea. Século I.
“Em oposição aos cânones modernos, o corpo grotesco não está separado do resto do mundo, não está isolado, acabado ‘nem perfeito, mas ultrapassa-se a si mesmo, franqueia seus próprios limites." “O corpo e as coisas individuais não coincidem ainda consigo mesmo, não são idênticos a si mesmos, como no realismo naturalista dos séculos posteriores; formam parte ainda do conjunto material e corporal do mundo em crescimento e ultrapassam, portanto, os limites do seu individualismo; o particular e o universal estão ainda fundidos numa unidade contraditória." — M. Bakhtin. A Cultura Popular na Idade Média: O contexto de François Rebelais. Intro..Ele está falando sobre o realismo grotesco renascentista, mas se aplica também a esse grotesco romano.
Pintura no Herculanaeum, Insula Orientalis, Gymnasium. Século Primeiro.
Pintada no Quarto Estilo Pompeu, é exemplo de "barroquismo romano", seja pela técnica de chiaroscuro, seja pelo "grotesco".
O grotesco remete à arte encontrada nessas grottas romanas, que retrata corpos ontologicamente abertos, sem uma separação precisa entre homem, animal, planta, etc.. Influenciarão a arte renascentista e o romantismo posteriormente.
O Último Arconte
Um amigo me questionou sobre se isso não seria negação do ser em prol do devir. Essa é uma interpretação superficial. Pois a Vida mesma, a nível ontológico, precede a razão, esta é uma faculdade da alma, aquela a raiz da alma mesma — o espírito — um princípio que não é distinto do Ser e do Intelecto.
A grande descoberta de Platão no Sofista foi que o Ser, por ser inteligível, não só afeta/ilumina /move o intelecto, mas é afetado/movido por ele. NIsso, ele distingue o Ser da stasis — que em Parmênides é idêntica ao Ser e a Unidade e por isso, a kinesis seria simplesmente nada. Participando o Ser em stasis e kinesis, não só o Ser não é mais imanente às ideias, perdendo sua identidade com a Unidade e se tornando partícipe nela, ao invés de idêntica, mas a kinesis ganha um status de realidade e a Vida é posta como uma das manências do Ser em Ser-Vida-Intelecto, nos neoplatônicos. Isso não só positiva a multiplicidade, mas podemos especular se isso faz com que toda perspectiva sobre o Uno, mesmo parcialmente, teria sua própria verdade. Dizer isso daria um significado ainda mais profundo à máxima aristotélica de que o Ser se diz de múltiplas formas.
Mas sobre a questão em si, no caso do barroco como contrário do classicismo, vida e razão estão no mesmo nível ontológico, e a vida acaba por preceder a razão aqui, pois primeiro, no devir, vem o corpo (ser), depois a vitalidade (vida) e só depois a razão (intelecto), onde os primeiros são mais duradouros e extensos que os últimos. É por isso é que possível argumentar que a razão é a flor da vida e que esta flor tem muitos frutos, muitos conceitos, muitos classicismos, muitas eternidades; essas razões (logoi) não são seres, não são eternas nem nada, mas conceitos fechados que acabam por impedir o movimento e não saber se adaptar bem quando desbancados.
Longe dessa posição ser um irracionalismo ou uma negação da eternidade, ela afirma justamente que o que é verdadeiro eterno sobrevive na vitalidade e que as formas são produções para entendermos momentos dessa vivência e conforme as coisas fluem, perdem seu lugar de ser, de onde passamos a precisar de novas formas, tão boniformes como elas.
Não são doenças que afetam homens saudáveis, mas homens tristes e mortais, que, por natureza, adoecem e morrem.— Carlo Michelstaedter. Diálogo da Saúde.
O Barroco como exaltação da Vida.
A natureza é vida; é atividade, mudança, fluir. A natureza transporta consigo o movimento; é, em si mesma, movimento. Porém, o movimento permanece, por natureza, fora do campo da razão; o movimento é absurdo. Qualquer introdução do movimento no processo de uma obra humana exige, por conseguinte para se realizar, um abandono da razão; [… o espírito clássico] cifra-se em tolerar ironicamente um mínimo de movimento, aceitando-o, se bem que com pesar, ou com sorriso, para escapar à morte e a título de mal menor. A atitude barroca, ao contrário, deseja fundamentalmente a humilhação da razão. O espírito barroco grita desesperadamente· “Viva o movimento e pereça a razão”; por outras palavras: “Viva a Vida e pereça a eternidade!.”— Eugenio d'Ors. O Barroco. A Querela do Barroco em Pontigny.
O Czar e o Povo: Executores da Causa de Deus
"Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César" é a lei escriturística sob um poder pagão. O povo não existe para o Czar, nem o Czar para o povo; antes, o Czar e o povo, juntos, são os executores da causa de Deus — a causa de toda a humanidade —; tal é a lei escriturística de um poder cristão ortodoxo. É a solução para as antinomias entre Deus e César, entre o espiritual e o secular, e a solução para as duas razões.— N. Fyodorov. Supramoralismo. q. XII.
No mundo hispânico, essa engenhosidade ou genialidade, será indissociável do gênio barroco, que é um espírito expansivo, assimilativo, criativo, porém horizontal. Ele revela diversas relações entre os entes, cria conceitos para isso e descobre outros entes através desse conceito. Ele desafia a lógica através do contraponto ou da aporia.
No entanto, seu grande mal é o mesmo mal do ocidente, a horizontalização. A expansão achata a grande árvore civilizacional, perde-se o interesse no superior pela novidade do mesmo plano, e pior: as fórmulas antigas, com toda a sua efetividade, são reinventadas, feitas literárias e depois esquecidas.
Ora, o barroco não é modernidade, na verdade, é anti-moderno. Ele nos apresenta uma maneira singular de superação da mesma, seu engenho é muito superior ao engenho moderno, e mais, nossa América foi fundada sobre ele.
No entanto, não devemos fazer dessa empolgação uma distração, confundindo a riqueza aparente com a real. Ele não deve passar de Lila, de uma brincadeira, uma belíssima e eudaemônica brincadeira, mas não divina, pois seu assombro não é o de Moisés.
Os naturalistas bávaros von Spix e von Martius integraram comitiva de Dona Leopoldina ao Brasil, onde relataram sua viagem pelo país no livro homônimo e anotaram a música encontrada em suas viagens em "Brasilianische Volkslieder und Indianische Melodien".
https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/573991
