Coração de Urtiga 🌿
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Reflexões vivas sobre Terra Corpo como Medicina: eco-filosofia, eco-mitologia, espiritualidade da Terra, herbalismo, movimento, arte e terapia eco-somáticos.
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Alergias: o que nos diz o sistema nervoso?
Esta é a época das alergias.
Isto é -nos apresentado como uma disfunção.
Porém, como nos diz Terence McKenna: tudo na Natureza é uma linguagem.
Isto significa que os sintomas são uma linguagem.
Trazem por isso informações importantes a integrar, mesmo que ainda difíceis de aceder. É importante não suprimir mas antes apoiar os sintomas de forma a moderar a sua intensidade sem os desligar, para que possamos escutar e assim fazer ajustes sensíveis necessários ao equilíbrio.
As alergias visitam-nos em fases de transição sazonal e a alta sensibilidade/ irritabilidade aos elementos que delas fazem parte tem uma relação estreita e concreta com as nossas fases de transição emocional, sobretudo fases de desenvolvimento neo-natal e infantil.
Para se adaptar com resiliência o sistema nervoso precisa de ter um pé no desafio e o outro na segurança, no vínculo estável. Precisa de amadurecimento para chegar à autonomia. Amadurecimento não se apressa, é um íntimo, único do sistema nervoso e fisiologia de cada pessoa. Tudo o que é apressado não é integrado e por isso não é amadurecido nem se transforma numa aptidão. Pelo contrário, pode tornar-se numa fragilidade crónica.
As alergias são também traços de trauma. Têm a ver com memórias presas a micro elementos presentes aquando de vivências marcantes que aconteceram demasiado cedo, demasiado rápido, com demasiada intensidade, muitas vezes prolongando -se por demasiadas vezes.
Podem ter sido experiências tão disruptivas em que o corpo guardou memória somática sem termos, no entanto, memória narrativa disponível.
Por vezes, a asma é uma resposta de sobrevivência mais inteligente do que o ataque de pânico. A sinusite e rinite são uma forma mais bem aceite de chorar, descarregar tensão nervosa e receber, por fim, algum amparo ou permissão para parar.
Nenhum destes significados é linear muito menos igual para toda a gente. Cada pessoa é única e por isso cada sintoma é uma linguagem única, com alguns elementos comuns com outras pessoas, mas muito de distinto. Gostaria sobretudo de nos convidar a, devagarinho, colocar curiosidade na relação com os nossos sintomas. Iniciar a conversa. Fazer de cada experiência da nossa fisiologia uma oportunidade de conexão com quem somos para poder resgatar integridade.
A saúde não é a ausência de sintomas, mas antes a capacidade de acolher a dor e integrar as informações que traz, emocionais, mentais como sensoriais. Capacitando-nos para uma das maiores e mais incompletas tarefas da infância, que tantas vezes se arrasta pela vida fora: viver no corpo e não na evasão dele.
Porque se fôssemos capazes de aceder a cura somente pela mentalização já não existiria doença.
Por vezes, o desconforto é a forma que o nosso corpo tem de não desistir de nós nem da nossa possibilidade de regeneração.
" Curar é na verdade a capacidade de acolher a dor." Gabor Mate
As alergias sazonais falam-nos da estreita relação entre o sistema nervoso, respiratório e imunitário.
Por isso, são importantes plantas que possam apoiar os três.
Algumas combinações de que gosto muito:
para chá ou para misturar em caldos ou papas
1- alfazema, tomilho, agulhas de abeto ou pinheiro
(1 colher de sopa de cada para 1 litro de água, primeiro deixamos ferver a água com as agulhas, dez minutos. Retiramos do lume e acrescentamos as restantes plantas, tapamos e repousa dez minutos. Coar, colocar num termo e ir bebendo.)
2- cidreira, orégãos, menta
( Ferver 1 lt água, colocar uma colher de sopa de cidreira, meia de orégãos e meia de menta, tapar e repousa dez minutos, coar, guardar num termo e ir bebendo)
3- equinacea, rosa, alcaçuz
( primeiro deixamos ferver a água com o alcaçuz, dez minutos. 1 lto de água e 1 colher de sopa de alcaçuz. Retiramos do lume e acrescentamos 1 colher de sopa de equinacea e meia de rosa, tapamos e repousa dez minutos. Coar, colocar num termo e ir bebendo.)
🌿 Sobre nutrir a Morte
Gosto de contar histórias.
Acredito que são a forma que temos de não esquecer o essencial.
Porém, não acredito na moral das histórias. Essa forma Linear de narrar com um objetivo específico que é igual para toda a gente desonra claramente a nossa singularidade e ao fazê-lo acaba por nos isolar na estranheza de ninguém sentir exactamente assim mas termos que sentir assim para ser aceites.
Por isso hoje fui lembrada destas duas fotos, tiradas em Outubro em Paris.
Na primeira, um Senhor gentil e alegre alimenta os pombos e os corvos do cemitério de Pére Lachaise.
Alimentar os pombos é normal. Alimentar os corvos é muito raro.
Dirigi-me a este Senhor com toda a curiosidade e respeito. O que é raro porque eu não sou de falar com estranhos a não ser que sejam pessoas mais velhas, daquelas já empossadas de si e da sua estranheza como território fecundo e necessário ao mundo.
Ora bem, este Senhor mora na vizinhança do cemitério e todos os dias sem excepção, faça chuva ou faça sol, há mais de duas décadas, vem alimentar os pássaros, sobretudo os corvos. E também alimenta os vários gatos que fazem dos jazigos a sua morada e vivem felizes na sombra das árvores que se erguem dos ossos de quem partiu lembrando que é na transformação que nos eternizamos.
Mais do que alimentar, fala com eles, conversa e é escutado. Sorri e dá certamente alento e sobretudo inspiração generosa a quem por ele passa.
Agradeci-lhe muito.
Porque são estes Senhores e Senhoras que simplesmente se atravessam no nosso caminho nos pequenos gestos essenciais que me retornam a alegria de viver e a noção de que o verdadeiro propósito é a comunhão.
Os gatos sorriram, os corvos também. Porque este Senhor é-lhes família e consegue escuta-los na sua linguagem própria.
Na segunda imagem, um jardim cujo solo é Terra e cinza, um jardim de árvores e flores ora selvagens ora cultivadas intencionalmente, que nos lembra que pertencemos ao chão coração da Terra, o seu colo é a fonte que faz da Morte Fertilidade.
Hoje ao lembrar estas fotos agradeço o Outono, porque é em tudo o que cai e se decompõe que está a potência fértil que emerge agora na Primavera.
Como vos tocam estas palavras?
🌿 Diário d'Ella
Witch I am
Fire doesn't burn me
I burn for I am fire.
Escrevi estás palavras há mais de uma década.
Primeiro, foi o semear de um medo psicótico que justificou uma violência cega.
Depois de caída a inquisição, perdurou o preconceito.
Que primeiro era juízo moral e agora é a capa do ridículo ou pior, a do fútil entretenimento paranormal a que a larga maioria da obra literária e de cinema nos vota.
Assim se parte a força da pertença e do saber viver com a teia da Terra viva.
Não temos memoriais e aguardamos reconhecimento responsável do impacto da violência nas nossas linhagens.
Não, perdão não basta.
Sim, ousamos imaginar o sagrado e sobretudo ousamos fazer do sagrado o chão pão coração de cada dia.
Parteiras, curandeiras, rezadeiras, ervideiras, semeadeiras. As que sabiam de plantas, de regeneração, de cuidado, morte, nascimento, dor, esperança activa, comunidade.
Hoje acendemos fogos.
Para neles colocar caldeiros de caldos medicinais nutridores.
Damos as mãos nuas diante da Mãe d'Água, branca e vermelha e gelada.
Mais do que relembrar, ousamos ser no presente de pés enraizados no chão coração.
Porque sei isto: num mundo em colapso fazemos cada vez mais falta, caminhando de mãos na massa e na Terra negra e fértil, em reverência, reciprocidade, sororidade.
Terra esta que não é a nova mas sim a Ancestral Senhora do tempo, de todos os corações, de todos os Caminhos.
A gratidão é maior do que o peito por todas as Mulheres que connosco caminharam, por quem nos acolheu, pelos caminhos selvagens e Natureza pura que nos abraçaram.
Caminhamos novamente de 23 a 30 de Março de 2024.
📸@martahortavaratojo
@susanacecilio
🌿 Diário d'Ella
Não se transpõe em palavras.
Não ilustram, muito menos definem ou lhes cabe o tanto que vivemos.
As Águas frias, negras, resplandecentes.
Os caminhos das plantas, da noite e da intensidade do Labirinto.
Peregrinar é adentrar a Alma, que é tecida a tantas mãos no bastidor da Grande Mãe Terra Viva.
Seguimos 🙏
🍀 Em 2024 peregrinamos por Ella de 23 a 30 de Março, semana santa.
📸
@claudiagabadinho
@_filipafalcao_
Susana N.
Susana C.
🌿 Diário d'Ella:
Isto é a Natureza do Parto:
Ser atravessada pelas Águas selvagens em toda a sua potência,
E ser a Pedra Mãe:
Que ao ser atravessada recorda que é estrutura.
Ela é a que acolhe o movimento das águas da vida com resiliência, segura, enraizada, mas também porosa e sensível. Presente.
No parto do corpo como no parto da Alma,
Lembrar que as Águas nos atravessam e transformam mas não nos diluimos nelas.
🌿 Diário d'Ella:
Chegar a Tintagel de madrugada. Frio, céu limpo e estrelado, canto do mar bravio.
Iniciamos a caminhada.
Gentileza, reverência, vulnerabilidade.
Atravessamos juntas desafios, intempéries, fragilidade. Criamos vínculo, sororidade, comunidade.
Quebramos o que está demasiado estreito e escutamos a voz dos Ancestrais, Águas, pedras, plantas, animais.
Foto 7:
Any man can be a father, but it takes someone special to also be a friend.
Cada passo, é puro Amor.
Do real, que nutre e por isso não é somente doce, mas antes medicinal e alquímico.
💜
🌿Há coisas que não podemos controlar e há uma beleza inevitável em deixar de tentar segura-las no simples espaço das nossas mãos.
Mas também há coisas que podemos e devemos controlar, porque "somos aquilo que fazemos com o que fizeram de nós." Não devemos ser nem negligentes nem indulgentes com as forças selvagens que nos formam. Nenhuma relação sobrevive ao descuido e ao descaso, ao facilitismo e à distração.
Tornamo-nos aquilo que praticamos todos os dias.
Se há tanto que não nos cabe nas mãos também há necessariamente nas mãos o dom de tecer e segurar o fio na roda de fiar.
No que se pode fazer não há lugar para largar.
As mãos abrem e fecham, com maior e menor intensidade, tamanho, intenção e capacidade. Há que usar cada espectro deste dom para existir com a nossa dignidade intrínseca, que tantas vezes nos foi retirada antes de a podermos sequer contactar. Também para a reconstruir e preservar, e ver a dignidade presente nas nossas relações.
Sem ela, como podemos ter reverência para com a Natureza quer da Terra Sábia quer da Alma?
Conhecer a potência do que fazer em cada gesto é uma prática de presença sensível no momento, e talvez a maior dança com a Vida dentro de nós e que nos rodeia em tudo. É profundo, é memória Ancestral e também é criação a acontecer pela primeira vez, é brincadeira e solenidade ao mesmo tempo.
Tudo tem um coração, da água, ao céu e ao chão e por isso, cuidamos a relação consciente e cuidada com cada parte de nós e deste mundo tão vivo e sensível.
Cuida que quem te diz que não podes controlar nada, não esteja a tentar roubar-te qualquer capacidade de controlo sobre a situação onde estás.
Não te esqueças que o maior predador é o maior sedutor. Sustém as raízes da tua própria vida com relações sãs.
Faz sentido?
citação de JP Sartre
( e sim, eu li-o e muito e há coisas bem mais simples na vida mas naquela altura pareceu um bom projeto 🤓).
🌿Para os proto-celtas havia apenas duas estações do ano: a fria, nocturna lunar e húmida e a quente, diurna solar e seca.
Estas estações tinham tempos variáveis e não iniciavam em data fixa, dependendo da gradual transformação da natureza no solo e da temperatura.
De forma aproximada, podemos entender que o final de Outubro apresenta o início da estação fria e o início de Maio o seu fim e início da estação quente. Estando a metade da estação fria em início de Fevereiro, o que significa que de fim de Outubro a início de Fevereiro o tempo vai arrefecendo e que a partir daí vai muito gradualmente aquecer.
O mesmo acontece a partir de início de Agosto, de início de Maio até aí o tempo vai gradualmente aquecer e a partir daí gradualmente arrefecer até início de Outubro.
Para os proto-celtas tudo é continuidade, na sazonalidade, no solo, na jornada da psyche e da alma inseparáveis do solo e do céu que são também a continuidade um do outro, pois que se tocam e fundem no horizonte.
Os Solstícios e Equinócios eram celebrados não tanto como marcos da estações em si mas sobretudo como pontos que assinalam o percurso do sol e da noite, como forças que se relacionam com a qualidade das águas e do solo, permeando toda a vida vegetal e animal.
Os rituais têm o objetivo de nos recordar a importância de lembrar o essencial: que das estrelas ao chão coração tudo está em relação constante, contínua, dinâmica, progressiva, que tem pontos comuns na sua ciclicidade mas que nunca se repete e sempre se renova. Como seria poderoso entender a relação contínua como uma peregrinação e ponte em vez de um portal, que se atravessa e se desliga do que foi em vez de o tornar chão fértil para fincar raízes e seguir crescendo em conexão?
Faz-vos sentido?
🍀Por hoje, celebro devagarinho a chuva e sol que se misturam e acordam plantas e ervas enquanto dão de beber ao solo. Agradeço a lã que me cobre num dia que tem momentos frios e outros quentes. E todos os seres que me aportam alimento, alento e amparo.
🌿 É com todo o carinho que partilhamos a nossa newsletter deste mês.
O Corpo, a Terra Viva e as comunidades circulares de apoio 🍁
Desta vez, queremos falar-vos da importância de tecer e estruturar uma relação íntima, honesta, profunda com o nosso corpo e com a Terra Viva a que pertencemos.
Há nos mamíferos um saber intrínseco que nos fala de ser parte do chão, escutar a pedra e a planta na linguagem sensorial e imaginativa, que antecede a palavra mas é tão clara quanto ela. Resgatar um contacto profundo com o nosso corpo é intenso, é desconcertante, mas também é um resgate da nossa capacidade de regulação nervosa, de reparar o nosso senso de pertença e de presença, de acordar capacidades simbólicas e anímicas de relação com todas as partes de nós, sejam conhecidas ou desconhecidas, e com tudo o que é parte da natureza, visível como sensível.
🦊 Continua abaixo
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