Coração de Urtiga 🌿
Open in Telegram
Reflexões vivas sobre Terra Corpo como Medicina: eco-filosofia, eco-mitologia, espiritualidade da Terra, herbalismo, movimento, arte e terapia eco-somáticos.
Show more742
Subscribers
No data24 hours
No data7 days
-130 days
Posts Archive
🌿 Reciprocidade e Animismo
Numa cultura onde tudo tem alma aproveitar troncis caídos para oferecer moedas constitui não uma superstição ignorante mas antes a prática viva da Reciprocidade, milenar e ininterrupta.
Cada moeda colocada não contém desejos, mas antes a gratidão pela abundância recebida e o pedido de ajuda para ver direcção e ter capacidade de caminhar através de desafios que parecem maiores do que nós
Cada vez que aqui passo percebo como é impossível para mim conceber uma abordagem terapêutica, somática, humanista que não esteja profundamente vinculada à ecologia e à consciência animista que nos diz tudo é Alma. A Alma é um estado de existência e não uma posse. É colectiva e individual simultaneamente, somos parte dela e é a nossa Natureza primordial.
Quase me parece estranho pensar que é uma nova perspectiva ou um resgate, é apenas o nosso estado orgânico enquanto mamíferos conscientes num planeta consciente, onde tudo o que existe é sensível e sensitivo.
Por isso, agradecer através de retornar ao chão do Bosque moedas, para que se decomponham e tornem Bosque, que novamente será caminho, casa, alimento e alento é não só natural mas um gesto de profunda regulação nervosa e de vínculo com o corpo, o lugar vivo e o estar vivo.
E a cada vez que testemunho estes lugares fico diante do paradoxo: da imensa gratidão por tudo e por tanto e do desvio colossal e perda contundente dos nossos costumes animistas ancestrais tão fundamentais à saúde, presença e pertença.
Curvo-me diante do Bosque e do chão e agradeço.
🌿Como vos tocam estas palavras?
Diário d'Ella, primeiro dia de Peregrinação
🌿 Querem um diário de fotos aqui? 💜
🌿 Estou a caminho da costa de Narcisos da Cornualha.
Um ano depois, voltamos a peregrinar.
Narciso, a planta da contemplação interna, traz portanto este olhar para o caminho percorrido e que nos atravessa a cada passo. Por ser uma planta tóxica, fala da alquimia necessária a que os nossos lugares venenosos possam ser mesurados com mestria, porque o veneno da justa medida, na circunstância adequada e no tempo certo é medicinal.
Para os pássaros e insectos, muitas das plantas tóxicas são pura nutrição. O que nos permite com humildade prestar reverência a que nada na Natureza existe para nós, e muito do que existe na Natureza não é nem para nós, nem sobre nós, mas sobre a continuidade da vida, da qual fazemos parte.
Este ano que me trouxe tantos encontros com pessoas profundamente sensíveis e potentes, cujas histórias guardo com confidencialidade, respeito, reverência e gratidão. Trouxe também um novo ciclo do meu trabalho na vertente animista, bem como uma nova casa, o @hearth.sintra
Vi o meu filho ficar mais alto do que eu e com o seu crescimento o convite a repensar, mais uma vez, que Mãe me estou a tornar para o acompanhar e como cuidar a relação da nossa família e do casal à luz deste crescimento. Questões vivas cujas respostas se elaboram e enriquecem a cada dia.
Narciso, flor das Águas profundas, quanto tens sido maltratado por um mito que se tornou patologia.
Falta a referência fundamental de que, talvez, quando Narciso olhou as águas não se viu apenas a si mas também a profundidade imensa da própria água que o refletia. A ele, aos céus, ao seu redor e ao mistério dentro do rio, além do visível. Talvez nos escape que Narciso se afundou na profundidade, tornando-se a própria Água.
Certo que Narciso fala do que nos pode cegar. O mito tem tantas camadas além do evidente narcisismo. Fala também de hiper fixação. Um traço de tão difícil e delicada gestão para quem o traz em si, uma combinação de benção e maldição, esta de focar até às vísceras e olhar até ao âmago
Talvez, afinal, cada mito seja tão mais rico e amplo do que a sua aparência e primeira leitura. E talvez, nós como a Natureza Selvagem, sejamos estes paradoxos vivos e em constante transformação.
🌿O que acontecerá se confiarmos na Urtiga para nos guiar?
Deus é Pedra e pede silêncio ao passar do dia.
Tem o tempo primordial do tempo primeiro, esse da pedra que se forma e desfaz, porosa como a eternidade. Porosa como nós diante do tempo, porosa como osso e água diante do vento.
Terá sido o vento, a pedra, o sol, a água ou a noite quem foi o primeiro chão que deu raízes à imensidão que nos deu a nós a vida?
A Senhora passa com suas mãos d'Água cada fio. Do nosso cabelo ao nosso fado.
Do sonho ao corpo profundo.
Do sangue ao semear do mundo.
Somos chão, tão breve mas tão fecundo.
Endovélico cuida a negra pedra de onde brota o sonho, a morte e a cura na mesma medida.
Ataégina move a roda do moinho d'Água das estações da Terra como da Alma.
Ter idade é ser símbolo de Fertilidade.
Cada ruga um caminho.
Cada passo, Sagrado.
Somos atravessados por aquilo que atravessamos.
Somos caminhos abertos ao tempo aberto.
Sem a Floresta que em nós brota, sobretudo diante da resistência. Aquela que começa na morte e na decomposição.
A Floresta brota primeiro como erva daninha, indomável e sem permissão, através do betão, em cada esquina.
O espinho abre caminho diante da dureza, torna poroso e dá de beber ao impermeável.
Afinal, ela vem cuidar. Depois de abrir, só nutre. Na dimensão do absoluto cuidar maior do chão vivo.
A Senhora desponta diante dos nossos pés e em vez de beijar em Devoção o chão olhamos o céu e pedimos milagres intangíveis. Há que apurar o olhar para a lealdade ao selvagem, primordial Sagrado.
O milagre está aqui e acontece a cada dia sem falhar, do sol pôr ao sol raiar.
E se deixarmos de ter medo de sentir medo? Talvez o temor possa caminhar com o amparo do Amor e nós com eles, em reverência e simplicidade.
Cada passo beija e é beijado pela Terra. Cada um dos nossos passos, sejam de esperança ou cansaço.
Não precisa de ser sempre fácil, não precisa de ser sempre difícil.
O que acontecerá se confiarmos na Urtiga para nos guiar?
🌿Lealdade ao selvagem
A Senhora dos Verdes caminha de pés sempre nus, em todas as estações. Por entre trilhos de cabras e lugares onde nunca ninguém pisou.
Caminha coberta da sua dupla capa, que devagar como o tempo que tem todo o tempo, vai virando.
Do negro vai brotando o indomável verde e ela que tem pele de Hera, Urtiga, Avenca, Água e Terra vai sendo atravessada por tudo o que brota.
À cinta traz bolsas: sementes e plantas medicinais que combina com contos, cantos e orações para levar alento onde passa.
Caminha entre a Floresta densa e a aldeia.
Lembra o que corre o risco de ser esquecido mas que nunca poderá ser esquecido porque a própria vida esmorece sem o cuidado de lembrar a Alma.
Caminha com todos os paradoxos, na sustentação da fecundidade que é o fino fio e inquebŕável que une e afasta a morte e o nascimento.
Passa parte do tempo no Bosque e parte do tempo entre pessoas. Sem demorar mais do que deve no Bosque para que o isolamento não a retire do contacto com a necesside da presença, sem demorar demasiado tempo com as gentes para que não se desoriente da sabedoria do silêncio.
No Inverno borda de verde a capa negra nas noites de borralho.
Na Primavera cobre de vida indomável todos os lugares. Tudo brota através dela e ela brota através de tudo.
Parece que a vejo aqui e lá atrás: nas mãos enrugadas e retorcidas como troncos de salgueiro. As filhas das Ervas nos seus vestidos negros. Bordando na noite fria, velhinhas e sempre eternas.
Semeando o chão, preparando alimento, fervendo o chá.
Sentadas em bancos de madeira baixinhos.
Cantando o som da Floresta viva que lhes é osso.
A lealdade ao selvagem é o caminho da reparação da sabedoria profunda do tempo, do corpo, do coração em relação.
É ter nas noites frias a crueza necessária ao germinar e saber que a bolota nunca sonha ser carvalho mas é o frio e depois o sol e a água que lhe acordam a essência de brotar, passo a passo, da raíz à soberania.
Há lá coisa mais bonita que ser simples sem saber?!
Lealdade ao selvagem também é confrontar a exigência desafiante de renascer, quebrar a casca e brotar além de si. Porque a vida atravessa-nos e faz de nós caminho e continuidade, além de nós.
Trago-vos um convite, para vós, Senhoras que escutam nos ossos o chamado do Bosque e cujo sussurro dos Ancestrais encanta.
De dia 15 a 21 de Março teremos 7 dias de Setena, dedicados a Eu Fémea, Bandua, Senhora da Hera e da Urtiga, Senhora dos caminhos Verdes, Helena dos caminhos d´Agua, Ostara, Isthar, Eostre.
Atravessamos os caminhos da Senhora da Senhora da Roda da Vida, da Mãe dos Chãos
Farejando em silêncio o trilho das corças prenhes, cuidando os ninhos dos pássaros, atentas a que cada passo abra caminho sem pisar o que brota do chão.
Afinal, as magas são as Meigas, ternas e eternas cuidadoras de tudo o que vive e o Bosque é o nosso Templo, e o lugar de ensinamento mais profundo.
Mergulhando na tecelagem viva do xamanismo celtibérico e nas formas sincréticas com que ainda ecoa nestas terras vivas e ressoa em nós.
Numa jornada misteriosa, profunda e fecunda abraçamos a Senhora nos seus nomes e aspectos mais primordiais, telúricos e ctónicos. Nos que nos movem e retecem o corpo e o sentir, de volta ao chão coração. Acolhendo paradoxos fundamentais à vida selvagem da Alma, do Corpo e da Terra.
🪨Todos os dias temos encontro das 18h às 19h, online, com práticas eco-mitológicas, somáticas, animismo e ritual.
O que é esta imersão?
Esta é uma jornada vivencial. Não é um curso, nem uma formação, mas uma experiência subjectiva, íntima, sensível e partilhada num grupo seguro.
É uma reflexão experiencial activa e comprometida sobre a nossa relação com a Terra, o corpo, a psyche e o Sagrado como forças dinâmicas estruturais. Aprendendo a reconhecer o nosso sistema nervoso, psyche e a nossa fisiologia na relação com a nossa natureza profunda, a Natureza da Terra e sua teia de relações dinâmicas e com as diferentes relações humanas.
Observaremos com curiosidade e muitas perguntas vivas que ampliam a percepção e sensação da Natureza da Terra e do corpo.
Olharemos mitos orgânicos ancestrais que nos orientam na vivência dos ciclos e daremos atenção a como a relação entre sol e solo também conversa com o nosso sistema nervoso, tão de perto.
Desceremos ao lugar da pedra, do osso que se fez pó, das águas subterrâneas, das raízes que sustentam a montanha e da neve, que tudo pára e tudo desperta.
Despindo o que outrora foi pele fértil, no encontro com a Alma que é fio no tear das relações que nos tecem e que tecemos.
Saber mais:
https://earthbodymedicine.com/events/eu-femea-hera-urtiga/
Ali estava Ela.
Brotando entre a caruma como as estrelas brotam do Céu no abraço da noite.
Scilla Bifolia
Cila Alpina
Tão pequena e tão grandiosa.
Cada pétala do tamanho de um traço de aguarela com o mais pequeno pincel.
Parei o carro para cumprimentar o Cedro e o Eucalipto.
Do outro lado da estrada vi um pequenino ponto violeta. Eu tenho um chamado por todas as flores de cor roxa, lilás ou violeta. Desde sempre.
Queria saber o nome de todas as flores. Fui percebendo que o nome das flores não se traduz inteiramente em palavras. Há uma linguagem tecida a saber e não saber, em igual medida, tecida a reverência, consciência, mistério.
A linguagem das flores faz-nos mais falta do que todas: elas parecem ser tocadas pela nossa apreciação mas só o são na aparência, para a maioria de nós.
As flores demoram muito tempo a falar-nos. Uma vida inteira em que até o sonho lhes pertence.
Se queremos escutar as plantas temos que nos tornar Bosque em vida.
O herbalismo é um sacerdócio.
Outrora, o único.
Agora, urgente.
Num mundo onde a cada dia perdemos mais e mais plantas e árvores.
Sentar-me com a Cila, pequena e poderosa é lembrar: se eu desapareço não há mais nenhuma esperança.
Ela que cuida respiração e sistema nervoso.
Ela que nutre o chão.
Ela que cresce entre a caruma onde quase nenhuma outra flor consegue.
Ela que mal se vê.
Ela que é imprescindível.
De quem eu e se calhar tantas que me lêem agora têm tantas saudades e por quem, mesmo sem saber porquê, nutrem tanto Amor.
Sentimos saudades de viver entre flores, árvores e folhagem densa. Da água selvagem. Do canto dos pássaros.
Saudades de nós.
A cada vez que paramos para ser olhadas e tocadas pelas plantas, há a redenção: retorno à casa da Alma. Há a gratidão de viver, mesmo se diante da dor. Com Força, foco e Fé para seguir mais adiante no caminho, no tempo da Natureza Selvagem Sagrada.
Que seja florido de pequenas flores, das que só são vistas quando atentamos com tempo e dedicação. Porque assim são todas as coisas que realmente fazem sentido e valem a pena nas nossas vidas.
A todos os corações que peregrinam o caminho do Bosque e da Alma: o meu abraço, seja onde for que estejam no percurso.
🐦⬛VÔO DESNUDO
Este era o nome dado, ancestralmente, às práticas das herbalistas alquimistas dos nossos territórios.
Fala-nos de retornar o corpo às forças da Natureza e de nos deixarmos atravessar por elas para ampliar a percepção e afinar a qualidade de presença.
Há fios que se enlaçam no remembrar do corpo como território selvagem, orgânico, intrínseca parte da Natureza viva.
A educação eco-somática toca a forma como a medicina alquímica secular observa e sente a relação entre o coração, a Terra e o Céu como imprescindível ao equilíbrio em quem somos e na firma como estamos presentes para a nossa relação com tudo o que existe. O visível, como o invisível.
O coração sendo centro do corpo e da consciência, gota de água entre os outros corações de tudo o que existe, num oceano vivo, sacro.
O que é sentido aporta-nos sentido, direcção.
Atravessamos a vida em menor medida do que a vida nos atravessa.
Há sangue em nós, como a seiva e a água precisa da vitalidade que a Terra lhe dá para que se mova.
Ontem na prática de educação eco-somática falámos de águas selvagens.
Da perda de não beber a água directamente do rio.
Da desorientação do nosso senso mamífero diante da distância abismal criada entre ser humano e natureza. A verdade, é que sendo mamíferos, sabemos nos lugares mais profundos da nossa inaptidão para sobreviver. Não sabemos onde beber água nem como a cuidar, não sabemos identificar plantas nem escutar o trilho onde se movem animais, não sabemos caminhar por onde não haja caminho liso o suficiente. O nosso sistema nervoso entende a vida como ameaça quando não sabe como cuidar da sobrevivência. E sem relação pele a pele com a Natureza, a vida física como a vida da Alma, definham e esmorecem numa agitação que nos implode e esgota.
A linguagem dos Pássaros é um termo simbólico para retornar ao lugar da relação com as várias camadas do chão, coração, céu como fundamentais à complexidade de quem somos na Alma, tecendo de volta o fio de pertença às forças maiores que nos sustêm e dão vida.
🐦⬛RESTAM 2 VAGAS
para a Imersão Vôo desnudo no próximo fim de semana, em Sintra.
Toda a informação está no link abaixo:
https://earthbodymedicine.com/events/a-senhora-dos-passaros-o-voo-desnudo/
Podes escrever-me:
senhoradazenha@gmail.com
🌿Veridiana
Com o orvalho da manhã abrem as violetas, púrpuras e brancas dos braços da Alvorada.
Abrimos as janelas e o granito da casa ilumina-se. Em todos os lugares a brisa fresca abre caminho e renova.
Das gavetas irrompe o cheiro a linho lavado, bordado em.longas noites de Inverno.
A água chega da fonte em cântaro de barro.
O fogo crepita devagar, o caldeiro ferve com água, os legumes e a galinha fresca são adicionados em gestos simples que dançam com as labaredas.
Guardamos segredos bordados a linho.
Sentam-se em bancos baixos na soleira das casas onde a nossa linhagem morou e onde mora agora a silva, a hera e o vento.
Se virmos pelo canto dos olhos ainda têm as sombras que cantam de quem neles se sentou e esse tempo paciente fala connosco baixinho.
Em manhãs bem cedo e na calada da noite.
A estrela d'Alba e do bom pastor nunca nos falha.
São caminhos de cabras e encruzilhadas, estes. No limiar de todas as coisas, que só as Filhas da Mãe peregrinam com capa longa tingida a lama, cabelo desgrenhado e pés descalços.
Veridiana
Cobre de rosas o caminho, e para cada rosa um espinho. Até que o próprio coração se nos floresça em chão.
Veridiana traz a pomba branca e a cotovia.
Traz a ovelha e a loba.
Alumia a noite e alegra o dia.
Traz o verde e a vida no regaço.
Brota como água fresca além do cansaço.
Dizem que não há certeza na vida senão a morte.
Certo é, que nada é mais certo na morte do que a Vida.
Se a alma se quebra como as folhas caídas, será chão fértil de novas vidas, erguidas.
Veridiana
Senhora Verde Verdade
Temperança
Força, Foco e Fé
Leve o tempo que levar
A Água atravessa a Pedra
A Hera atravessa o Muro
A Água nunca se quebra.
🌿Falámos de Veridiana na Novena de Turibriga. Senhora ancestral da Linha da Vida.
Aqui a partilho nas minhas palavras com Amor e Gratidão, a todas as mãos e corações quee unimos no resgate da Devoção da Senhora da Alta Estrelas, da Água Plena e do Verde Chão.
A Senhora da Coruja, do Corvo, da Andorinha, da Pomba, do Cisne, da Cotovia, da Águia , da Garça atravessa os nossos territórios e o nosso sentir desde o princípio do tempos.
Nesta imersão, abraçamos a presença animista dos Pássaros no culto das Senhoras, através de um resgate simbólico, eco-somático, artístico e ritual.
Para os nossos ancestrais animistas, a presença diante do Mistério das outras formas de vida já compreende transformação e sacralidade inerente. Assim, neste mergulho, procuramos trazer ao corpo a capacidade de remembrar e recordar os pedaços de natureza selvagem que somos, de como o corpo que dança se transforma nas formas anímicas e animais com que se relaciona, mais do que interpretar, abrimos caminhos no corpo e na sua conexão com a Terra Viva: permitindo que o vôo brote de dentro do ventre, dos ossos, da pele tornadas sensíveis e
Caminhamos nos mitos da Senhora dos Olhos de Sol, Calaica, Mouras, Morgana, Grande Corvo, Isis, Athena, Ishtar, Brigid. Todas elas vivas no território português e portanto necessariamente em lugares adormecidos que seguem tecendo sonhos em nós.
Vôo desnudo foi o nome das Danças femininas pagãs desde a noite dos tempos até ao iluminismo. Primeiro dançadas sob as estrelas no Bosque profundo e depois cada vez mais envoltas em secretismo, por falarem de uma profunda intimidade com os lugares vivos do solo e dos seres.
Vestimos o manto, o véu evo xaile: relembramos as asas que também emergem de dentro dos ossos-coração que somos.
De pés enraizados no chão, coração nas mãos e olhos tingidos de ocre. Seguimos.
Numa exploração que une fios de xamanismo celtibérico, educação eco-somática, movimento, dança, voz, adufe, tambor, cantos devocionais e tradicionais, herbalismo e ecologia espiritual.
Um mergulho profundo e transformador no nosso corpo mamífero, na psyche e na natureza pela primeira linguagem que temos: o movimento em relação com o chão e o céu, e tudo o que existe no abraço entre ambos.
Este é um trabalho transformador, que complementa práticas terapêuticas, artísticas, de desenvolvimento humano e de corpo.
Uma abordagem única e extraordinariamente rica.
Saber mais:
https://earthbodymedicine.com/events/a-senhora-dos-passaros-o-voo-desnudo/
🦉senhoradazenha@gmail.com
Ninguém nos diz que somos rios.
Que transbordamos.
Que quanto mais tempo passar menos seremos capazes de coexistir com os muros de barragens impostas sobre os nossos fluxos.
Que a nossa liberdade pede retorno à sua verdadeira Natureza.
Que choramos com saudades do chão, que nos estrutura e contém, sim, mas que também nos oferece total liberdade para fluir sem qualquer pressão ou aprisionamento mas com todo o respeito pelo abraço à intrepidez da correnteza.
Quem adentra a percepção eco-somatica rapidamente compreende que nos erguemos culturalmente sobre mitos de dissociação sistémica que nos colapsam por dentro. A preocupação em transcender é tão maior quanto maior é a dificuldade em encarnar, ser carne e corpo num mundo onde nós queremos mamíferos, animais, alma, força vital da anima mas onde nos foram secularmente amputando as vias de nós habitarmos plenamente.
Como podem o sangue, suor, lágrimas e seivas da sexualidade fluir se nunca testemunhamos águas livres? Se não tocamos com as mãos, o olhar, a boca e o ventre as águas de rios sem domesticação do caudal?
Como pode a fisiologia conhecer o que nunca pode testemunhar? E como pode seguir o seu fluxo se o caminho de casa lhe foi cortado?
Como pode a psyche aprender o Amor se não viu brotar da Terra a semente que germinou no gélido coração do Inverno? Se não acolheu o beijo do Sol à neve que traz a água ao caudal do rio?
A doença e o selvagem estão intimamente ligados: é a urgência do retorno à Natureza selvagem, viva, dinâmica e sistémica que nos adoece.
A ausência da psico-fisiologia Mamífera e da Terra viva, da Psyche Mater selvagem, desgasta-nos e retira-nos a possibilidade de existir com dignidade.
Regenerar não é apenas um movimento individual, mas ecossistémico.
Onde curamos a doença criamos resiliência, evolução. Onde a doença nos mata criamos solo, caminho.
De qualquer das formas, o Selvagem reclama o seu espaço, dentro de nós como nós dentro dele. Pede pertença e presença diante do tanto e do todo. Do concreto, do abstracto e do paradoxo. fo tangível e do misterioso que tece o tempo e a vida.
Resgatamos pois os ossos para nós regenerarmos enquanto parte de um planeta Vivo. Mamíferos, somos talvez o seu sistema nervoso. A regulação nervosa ou é sistémica ou apenas um pobre paliativo. Não nos enganemos.
Toda a reparação de trauma serve para nos re-orientar na direção do vínculo e do afecto. Porque somos parte da Natureza que brota indomável.
Até que todos os rios sejam novamente a só correnteza, sistema Cardiovascular da Terra e do corpo vegetal e animal. Até que toda a Terra seja novamente uma só floresta.
Até que sejamos parte do Bosque integralmente, de novo, e possamos encontrar amparo na pedra da montanha, na coruja e no carvalho.
De pés no chão, coração nas mãos e mãos no coração da pulsante Vida selvagem, que torna a Morte fértil e fecunda.
