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Economia — Brasil
O calote que ninguém vê
RESUMO: Diante da pergunta recorrente das pessoas sobre um calote na dívida brasileira, a resposta é que o calote clássico é NÃO VAI ACONTECER, mas o calote silencioso via inflação, câmbio e impostos já opera há décadas. A dívida pública sobe de 79% para 86% do PIB em dois anos, com conta prevista para 2027 independentemente do resultado eleitoral.
O Brasil vai dar calote na dívida? A pergunta virou rotina nas últimas semanas, repetida por empresários quase nos mesmos termos, e merece uma resposta precisa, porque responder certo à pergunta errada não protege o patrimônio de ninguém.
O calote tradicional, aquele em que o Tesouro simplesmente deixa de pagar um título, é NÃO VAI ACONTECER para um país endividado na própria moeda. Existe uma saída mais barata e mais discreta, que já opera há décadas e continuará operando depois de outubro de 2026, não importa quem vença a eleição: o calote pela via da inflação, do câmbio e da carga tributária. Ninguém deixa de receber o que lhe é devido, mas o que se recebe vale sistematicamente menos. Um calote sem manchete, e por isso mais difícil de discutir e de precificar.
A trajetória fiscal justifica a urgência do tema. A dívida pública bruta sobe de 79% para 86% do PIB (Produto Interno Bruto) em apenas dois anos. Essa fatura chega em 2027 e não depende do resultado das urnas. O mercado já precifica o problema: a projeção para a Selic, que em dezembro rondava 12,7% a 12,9%, aparece em julho próxima de 14,8%, um prêmio maior exigido para financiar um governo que ainda não fez o ajuste fiscal necessário. A isso se soma uma eleição tecnicamente empatada, com pesquisas de segundo turno entre 46% e 45%.
Num cenário de continuidade, a leitura mais provável é a extensão do regime atual: gasto elevado, dívida ascendente e arrecadação crescente via reforma tributária, com o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) caminhando para 28% e o ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação) migrando para alíquotas progressivas. O resultado é juros altos por mais tempo, pressão cambial pela busca de diversificação fora de um único sistema tributário e monetário, e a carga tributária consolidada como variável estrutural em decisões de investimento e sucessão.
Já numa vitória da oposição, a reação de curto prazo tende a favorecer ativos domésticos, com o Ibovespa negociando a 8,3 vezes lucro contra uma média histórica de 10,2 vezes, desconto que só precisa de um catalisador. Mas o desafio de execução política não desaparece: a dívida caminha para 86% do PIB em 2027 de qualquer forma, o Congresso segue fragmentado e as reformas pendentes continuam extensas. Dependendo da intensidade, o rally de alternância pode funcionar menos como entrada e mais como janela de realização.
Um número resume a lógica da espera: com a Selic em 14,15% e o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 4,52% nos últimos doze meses, o carrego real do pós-fixado (um CDI, por exemplo) chega a 9,2% ao ano, acima dos 8% da NTN-B (Nota do Tesouro Nacional série B) de dez anos. Um instrumento com liquidez diária pagando mais que um título de uma década é configuração típica de picos de aperto monetário, e o custo de esperar por definições eleitorais está próximo de zero.
O Brasil não vai dar o calote clássico dos livros-texto. O calote silencioso, via inflação, câmbio e impostos, já está em curso há décadas, e a conta de 2027 já foi emitida, seja qual for o nome que ocupar o Planalto.
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Esqueci que hoje era dia dos pais (não damos a menor bola para estes "dias" aqui em casa). Assim, não adianta grandes coisas fazer o semanal por agora. Vou deixar para o final do dia quando as comemorações já tiverem acabado. Mais tarde, então, farei o semanal aberto. Para quem se importa com estas coisas, Feliz Dia dos Pais.
Esses são relatórios resumidos para consumo fácil. Ocasionalmente gero relatórios padrão CVM APIMEC, porém são muito extensos, aprofundados e nem todo mundo tem tempo ou saco para le-los. Daí o povo do N2 ter preferido os resumidos na maior parte dos casos.
