Uma declaração aos colegas do MBL/Missão
Creio que poucos aqui saibam quem é "Republicano" além do pseudônimo e do Canal Armillary. Não, não sou alguém importante. E não, também não sou agente do Mossad, como alguns tentaram me imputar.
Sempre fui introspectivo e preferi discutir ideias no privado, em fóruns, imageboards, Facebook ou Twitter. Por isso carreguei o Canal por tanto tempo sem nunca assinar com meu nome de batismo. Não por medo de represália, mas porque eu não conseguiria separar minha profissão, minha vida comum e meus relacionamentos das minhas opiniões públicas. Mas por que contar isso agora? Porque, para explicar o que quero dizer, preciso explicar de onde venho.
De onde eu vim
Em meados de 2015, o país vivia o desgaste final do governo Dilma Rousseff, e uma grande bolha de ideias se formava na internet. De um lado, os conservadores olavistas. De outro, o pessoal do Instituto Borborema, da Burke e do Mises/Rothbard Brasil. Eu era muito novo, estava no auge da adolescência e quis absorver tudo o que pudesse. E absorvi. Fiz amizades verdadeiras, do tipo "Idem Valle, Idem Nolle" em todos esses movimentos.
Muitas daquelas pessoas estavam empenhadas em derrubar Dilma e acabaram formando os três grandes movimentos do período: MBL, Vem Pra Rua e Movimento Conservador (Direita São Paulo). No MBL, havia amigos meus da época do Mises Brasil, com quem eu discutia Rothbard, Locke, Smith e Hayek. Eram jovens como eu, mas realmente interessados em estudo e no movimento liberal clássico. Para mim, o MBL seria o maior movimento político do Brasil.
O primeiro desencanto
Mas eu acordei a tempo. Vi interesses pessoais conduzirem o movimento para um destino diferente daquele que me atraiu.
Em 2016, enquanto o Brasil acompanhava o impeachment, os EUA caminhavam para uma eleição que parecia fácil para Hillary Clinton contra um "palhaço" outsider. Eu já estava desgostoso com a política brasileira e apaixonado pela americana. Lembro que, em 2012, chorei de verdade com a morte de uma inspiração: Andrew Breitbart. Desde então, acreditei que a mídia alternativa era o futuro e que o jornalismo cidadão seria o grande ponto de inflexão da sociedade. E de fato é, embora, quando jovem, eu enxergasse isso em proporções maiores. Talvez seja por causa de Breitbart que existe o Armillary.
Foi nessa época que vi Fernando Holiday, hoje abraçado ao bolsonarismo, defender que Hillary, o establishment, era melhor que Trump. Quase tive um troço. Briguei com todo mundo e disse que eles não passavam de liberais à americana, o que, aliás, às vezes ainda acho.
De lá para cá, tive várias idas e vindas: ora me aproximava, ora me afastava para preservar a sanidade. Acompanhei de perto a ascensão e as rupturas do grupo, inclusive o período em que o MBL apoiou Bolsonaro e depois rompeu com ele.
Chego, então, ao que realmente quero dizer. Sabem o que impediu vocês de ir além dos 2% nas urnas? Não foi perseguição de Bolsonaro, nem qualquer outra coisa. Foi a pandemia, meus caros.
Como eu disse, conheci essa galera no Mises Brasil, discutindo Hayek, Smith e Locke. Vocês construíram a imagem e o público em torno da defesa da liberdade individual e do Estado limitado. E, quando veio a primeira grande emergência, a primeira vez que a situação escapou do nosso controle, vocês defenderam o cerceamento das liberdades individuais e cooperaram, dialeticamente, com o avanço autoritário do Estado contra civis. Esse é um preço que vocês pagam hoje e sempre pagarão.
Na contramão, um político com poucos instrumentos de estudo liberal, que talvez nem soubesse a fundo o que é libertarianismo ou liberalismo, foi mais libertário, mais liberal e mais defensor das liberdades econômicas e individuais do que qualquer liberal "graduado". Vocês podem chamá-lo de corrupto, se é que há alguma mancha, ou de covarde, se é que ser atacado por todos os lados permite outra coisa. Mas o que é ser corrupto? Quando, no momento de maior pressão, imploramos por autoritarismo, isso também é corrupção: é corromper a própria consciência.