Aprendendo com Assê
Ir al canal en Telegram
Canal dedicado à espiritualidade, autoconhecimento e expansão da consciência, por Assê
Mostrar más296
Suscriptores
Sin datos24 horas
-27 días
-130 días
Archivo de publicaciones
Despertar não significa ficar sem mente, mas perceber a mente. Não significa nunca mais sentir medo, mas perceber o medo sem automaticamente entregar a ele o comando das nossas decisões. Não significa deixar de ter uma personalidade, mas compreender que somos muito mais do que a história que contamos sobre quem somos.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante deixada por Revólver não seja quem era o verdadeiro adversário de Jake.
Talvez seja esta:
Quem está tomando as decisões dentro da sua cabeça enquanto você acredita que é você quem está decidindo?
Assê
⚠️ ALERTA DE SPOILER
Se você terminou Revólver sem entender completamente o que aconteceu, a principal chave para interpretar o filme está no ego. E não estou falando apenas de vaidade ou arrogância, mas daquele sistema de pensamentos, medos, crenças e mecanismos de defesa com o qual nos identificamos tão profundamente que deixamos de perceber sua atuação.
Jake acredita que seu grande adversário é Macha. Mas os dois, na verdade, estão presos ao mesmo jogo: vencer, controlar, proteger a própria imagem e jamais demonstrar fraqueza. Macha representa esse mecanismo em seu estado mais extremo. Ele precisa ser temido e estar no controle porque qualquer ameaça à imagem que construiu de si mesmo é sentida como uma ameaça à própria existência.
É aí que entram Avi e Zach, os dois homens misteriosos que passam a conduzir Jake por um processo bastante desconfortável. Simbolicamente, podemos entendê-los como mestres iniciáticos: aqueles que já compreenderam as regras do jogo e conseguem enxergar o tabuleiro de uma perspectiva que Jake ainda não alcançou.
Eles não tentam explicar o ego a Jake. Fazem algo muito mais eficiente: criam situações para que ele veja o próprio ego funcionando.
Avi e Zach começam a retirar justamente aquilo que sustenta sua identidade e sua sensação de segurança: dinheiro, controle, certezas e, principalmente, a convicção de que ele está no comando. Colocam Jake diante de seus medos, resistências e apegos até que aquilo que sempre operou silenciosamente dentro dele comece a se tornar visível.
Jake acredita, durante boa parte do filme, que os dois estão tirando sua liberdade. Na verdade, estão retirando aquilo que o mantém preso.
É quando a voz dentro de sua cabeça se torna cada vez mais evidente.
Ela argumenta, acusa, desconfia, sente medo e tenta recuperar o controle. Mas há um detalhe fundamental: ela fala em primeira pessoa.
O ego não diz: “Jake, você está com medo”.
Diz: “Eu estou com medo”.
Não diz: “Sua imagem está sendo ameaçada”.
Diz: “Eu não posso permitir isso”.
É exatamente assim que acontece conosco. Um pensamento surge e raramente percebemos: “Existe um pensamento acontecendo em minha mente”. Simplesmente acreditamos nele e reagimos como se fosse a própria realidade.
A cena do elevador é fundamental porque, pela primeira vez, Jake começa a observar aquilo que antes simplesmente obedecia. A voz continua falando, o medo continua presente e seu corpo continua reagindo, mas surge um espaço entre ele e tudo isso.
E aí aparece a grande questão do filme: se você consegue observar seus pensamentos, quem é você? O pensamento ou aquilo que percebe o pensamento?
Macha nunca consegue fazer esse movimento. Permanece completamente identificado com sua imagem, seu poder e seu medo. Por isso, quando Jake finalmente aparece diante dele e pede perdão, Macha entra em colapso.
O jogo de Macha depende de ataque, defesa, competição, vingança, superioridade e humilhação. Mas como continuar uma batalha quando o adversário simplesmente abandona o jogo?
Jake vence quando deixa de tentar vencer.
E essa é uma das grandes ironias do filme.
Durante toda a história, ele acredita que sua liberdade depende de derrotar seus inimigos. Aos poucos, percebe que algumas das prisões mais eficientes não possuem paredes. Possuem pensamentos, medos, crenças, condicionamentos e identidades.
Nesse sentido, podemos compreender os três papéis centrais do filme assim: Macha representa o ego completamente identificado consigo mesmo. Jake representa a consciência começando a despertar dessa identificação. E Avi e Zach representam aqueles que já compreenderam o jogo e criam as condições para que Jake também consiga enxergá-lo.
Mas o filme não está dizendo que precisamos destruir o ego. Essa ideia, aliás, costuma criar uma situação curiosa: a pessoa descobre o ego e imediatamente cria um novo projeto chamado “vou acabar com meu ego”.
Adivinhe quem assumiu a direção do projeto. 😂
A questão é deixar de ser governado inconscientemente por ele.
REVÓLVER: UM FILME QUE É MUITO MAIS DO QUE PARECE
À primeira vista, Revólver parece apenas mais um filme de ação com Jason Statham. Máfia, dinheiro, vingança, jogos de poder, homens perigosos fazendo cara de poucos amigos... tudo dentro do esperado.
Só que não.
E talvez seja justamente por isso que tanta gente termine de assistir ao filme sem entender direito o que aconteceu.
Revólver não entrega sua mensagem de maneira didática. Ele esconde filosofia, psicologia e questões profundas sobre a mente humana dentro de uma história policial. Enquanto você tenta entender quem está manipulando quem, quem são os verdadeiros adversários e o que está acontecendo com o protagonista, o filme começa a conduzir você para um território completamente diferente daquele que parecia apresentar no início.
Jake Green, personagem interpretado por Jason Statham, acredita que sabe exatamente com quem está lidando. E nós, espectadores, acreditamos junto com ele.
Mas, aos poucos, algumas perguntas começam a surgir.
Até que ponto conhecemos realmente as forças que comandam nossas decisões?
Por que reagimos da maneira como reagimos?
De onde vêm nossos medos, nossas certezas, nossa necessidade de controle e nossa constante preocupação com aquilo que os outros pensam sobre nós?
Existe uma voz dentro da nossa cabeça que comenta absolutamente tudo.
Ela julga. Compara. Interpreta. Desconfia. Sente-se ameaçada. Quer vencer discussões imaginárias. Relembra aquela resposta brilhante que deveríamos ter dado três dias atrás e, quando não encontra nenhum problema real para resolver, gentilmente fabrica um.
O mais curioso é que raramente percebemos essa voz como algo que estamos observando.
Nós simplesmente acreditamos nela.
Se ela diz “você foi desrespeitado”, sentimos raiva.
Se diz “você vai fracassar”, sentimos medo.
Se diz “você precisa provar quem é”, começamos uma batalha.
E talvez exista aí uma pergunta muito mais profunda do que parece: se você consegue observar essa voz, quem é você?
A voz?
Ou aquilo que percebe a voz?
Parece uma pergunta simples. Não é.
Grande parte daquilo que chamamos de “eu” pode ser apenas um conjunto de pensamentos, medos, memórias, condicionamentos e mecanismos de defesa repetindo padrões há tantos anos que deixamos de perceber que são padrões.
A mente fala.
Nós obedecemos.
A mente interpreta.
Nós reagimos.
A mente nos convence de alguma coisa.
E ainda chamamos tudo isso de livre-arbítrio.
Revólver trabalha com muitas camadas e símbolos. Por isso, não recomendo assistir esperando apenas entretenimento. Também não recomendo tentar compreender racionalmente cada cena enquanto ela acontece, porque existe uma boa possibilidade de seu cérebro abrir uma reunião extraordinária consigo mesmo e exigir respostas antes dos créditos finais.
Apenas observe.
Observe as relações entre os personagens.
Observe o medo.
Observe a necessidade de controle.
Observe aquilo que parece óbvio demais.
E, principalmente, preste atenção às perguntas que o filme começa a provocar em você.
Porque Revólver é um daqueles filmes que parecem contar uma história sobre determinados personagens, mas que, aos poucos, começam a falar sobre algo muito mais próximo de nós mesmos.
Se você gosta dos temas sobre os quais escrevo — consciência, mente, percepção, condicionamento e despertar — recomendo muito que assista.
Mas assista com atenção.
Talvez, quando os créditos começarem a subir, você perceba que o filme estava fazendo perguntas muito diferentes daquelas que você imaginava no início.
Assê
Quer se aprofundar ainda mais? Descubra meus outros conteúdos e projetos gratuitos aqui: https://linktr.ee/Samantha.Concolino.Asse
infinitamente maior do que aquilo que nossos sentidos, nossas palavras, nossas doutrinas e até nossos mestres conseguiram descrever.
Afinal, talvez aquilo que parece separado esteja apenas sendo percebido separadamente.
Talvez a Realidade nunca tenha sido fragmentada.
Talvez nós apenas tenhamos aprendido a enxergá-la em pedaços.
Assê
Quer começar a investigar, na prática, os limites da sua própria percepção?
Convido você a conhecer o treinamento gratuito Visão Além da 3D, que organizei para ajudar a desautomatizar o olhar, ampliar o campo perceptivo e experimentar outras formas de observar aquilo que normalmente passa despercebido diante dos nossos olhos.
Acesse o treinamento gratuito: https://t.me/visao_alem3D
Quer se aprofundar ainda mais? Descubra meus outros conteúdos e projetos gratuitos aqui:
https://linktr.ee/Samantha.Concolino.Asse
Conforme vamos transitando de uma percepção extremamente dual para uma compreensão maior de interdependência e comunhão, nossas atitudes começam a mudar. Na dualidade mais extrema, o mundo é dividido constantemente entre bons e maus, certos e errados, nós e eles, aliados e inimigos, minha crença e a sua, minha verdade contra a sua.
Vivemos defendendo identidades, opiniões, grupos e territórios psicológicos. Precisamos vencer, convencer, controlar e provar.
Conforme a percepção se amplia, essas fronteiras começam a ficar menos rígidas. Passamos a compreender que o outro também está vivendo um processo. Tentamos compreender antes de condenar. Percebemos que ajudar alguém não nos diminui, que o crescimento do outro não ameaça o nosso e que cooperar pode fazer muito mais sentido do que competir.
Isso não significa perder o discernimento, aceitar tudo ou abandonar limites. Significa apenas deixar de transformar toda diferença em separação e toda divergência em guerra.
Aos poucos, surge uma percepção maior de comunhão. A vida deixa de parecer uma disputa entre bilhões de partes isoladas e começa a ser percebida como uma imensa rede de relações.
E talvez uma das maneiras mais concretas de observar se nossa compreensão espiritual está realmente se aprofundando seja olhar para aquilo que acontece em nossas atitudes.
Uma pessoa pode conhecer inúmeras dimensões, ter experiências mediúnicas, vivenciar estados extraordinários de consciência, estudar durante décadas, conhecer profundamente grandes mestres e continuar extremamente dualista, competitiva, julgadora e convencida de que o universo está dividido entre aqueles que compreenderam a verdade e todos os outros infelizes que ainda não tiveram a mesma sorte.
Expandir o cenário da realidade não significa necessariamente expandir a consciência.
Talvez um dos sinais mais importantes dessa expansão seja justamente uma diminuição gradual da necessidade de viver em guerra. Quanto mais percebemos a Unidade, menos sentido faz viver como se estivéssemos cercados de inimigos.
Sei que alguns desses conceitos são difíceis de compreender apenas intelectualmente. Podemos ler cem livros sobre não dualidade, participar de discussões extraordinárias, conhecer perfeitamente os termos em sânscrito, citar os grandes mestres no idioma original e, se estivermos especialmente inspirados, corrigir a pronúncia dos outros. E ainda assim continuar tentando compreender com a mente algo que, em última instância, ultrapassa seus próprios recortes.
É por isso que determinadas experiências místicas podem ser tão transformadoras. Por alguns instantes, aquilo que estudamos durante anos pode simplesmente se revelar.
Não pensamos apenas que tudo está conectado. Percebemos. Não acreditamos apenas que somos mais do que o corpo. Experimentamos. Não repetimos simplesmente que todos somos Um. Por alguns instantes, a separação que parecia tão evidente deixa de fazer sentido da maneira habitual.
Depois, a mente volta, a personalidade volta, as contas continuam chegando, a louça continua misteriosamente incapaz de lavar a si mesma e continuamos vivendo nossa experiência individual.
Mas algo pode permanecer.
É como se, depois de passarmos a vida inteira observando pedras separadamente, tivéssemos visto a pirâmide inteira por alguns instantes. Voltamos a olhar para as pedras porque precisamos continuar vivendo e funcionando nesta experiência, mas agora sabemos que elas nunca estiveram realmente soltas.
E então começa talvez a parte mais importante de todo o processo: integrar aquilo que percebemos.
Porque ter uma experiência extraordinária não significa necessariamente ter incorporado sua compreensão. A experiência mostra. A vida cotidiana revela o quanto foi incorporado.
Talvez, no fim das contas, investigar a realidade exija uma combinação bastante incomum: conhecimento suficiente para não sermos ingênuos, humildade suficiente para reconhecer que nossos mapas não são o território, discernimento suficiente para não acreditarmos em qualquer coisa e abertura suficiente para admitir que a Realidade pode ser
O conhecimento que deveria ampliar a investigação começa a determinar antecipadamente aquilo que estamos autorizados a encontrar. Diante de uma experiência nova, perguntamos: “O que meu autor de referência diria sobre isso?”, “Em qual doutrina isso se encaixa?”, “Qual conceito conhecido explica esse fenômeno?”
Não há absolutamente nada de errado nessas perguntas. O problema começa quando elas são as únicas perguntas permitidas. Porque, nesse momento, talvez já não estejamos investigando a realidade. Estamos apenas tentando encaixá-la naquilo que já sabemos.
Fazemos com os sistemas de conhecimento exatamente aquilo que nossa mente faz com os objetos: recortamos, nomeamos e classificamos. Isso é Espiritismo. Aquilo é Teosofia. Isso é Advaita. Aquilo é Budismo. Isso é ciência. Aquilo é misticismo.
As classificações são úteis. O problema é imaginar que a própria Realidade tenha alguma obrigação de respeitar as divisões das nossas estantes de livros.
Talvez a melhor maneira de honrar aqueles que investigaram profundamente a existência não seja transformar suas conclusões em muros, mas preservar a coragem investigativa que permitiu que chegassem a elas.
Isso não significa abandonar o conhecimento. Muito menos aceitar qualquer ideia extraordinária, experiência ou afirmação como verdadeira apenas porque é diferente daquilo que conhecemos. Abertura não é credulidade. Questionar os mapas conhecidos não significa jogar fora a bússola e sair correndo alegremente em direção ao primeiro precipício disponível.
Discernimento continua sendo fundamental.
Mas existe uma diferença enorme entre discernir e decidir antecipadamente quais resultados uma investigação está autorizada a encontrar. Ir além dos mapas conhecidos não significa trocar conhecimento por credulidade. Significa investigar sem decidir antecipadamente quais resultados a investigação está autorizada a encontrar.
E talvez possamos começar essa investigação por algo muito mais próximo do que imaginamos: nossa própria percepção.
Foi a partir dessas reflexões que organizei, há alguns anos, o treinamento Visão Além da 3D. Sua proposta não é oferecer uma nova crença, mas experimentar outra forma de observar.
Normalmente, quando olhamos para uma imagem ou para o mundo ao nosso redor, nossa atenção procura imediatamente aquilo que conhece. Uma pessoa, uma árvore, uma nuvem, uma pedra. O cérebro reconhece os contornos, separa figura e fundo, nomeia aquilo que encontrou e conclui rapidamente: “Já sei o que estou vendo.”
E a investigação termina quase antes de começar.
No treinamento, a proposta é desautomatizar gradualmente esse olhar. Em vez de observar apenas objetos isolados, começamos a perceber o conjunto. Em vez de seguir automaticamente o ponto de fuga para onde a imagem conduz nossa atenção, ampliamos o campo visual. Em vez de permitir que a mente determine imediatamente aquilo que está diante de nós, permanecemos mais tempo observando.
Uma das orientações fundamentais é simples: observe o todo. Procure os olhos.
Aos poucos, aquilo que parecia apenas fundo começa a participar da imagem. Formas aparentemente isoladas revelam relações. O espaço que parecia vazio deixa de ser tão irrelevante. E começamos a perceber uma coisa desconcertante: talvez não vejamos a realidade em sua totalidade. Talvez vejamos uma seleção extremamente reduzida dela e chamemos essa seleção de “tudo”.
O treinamento da percepção não é, evidentemente, a experiência da não dualidade. Mas pode abrir pequenas frestas em nossas certezas. Pode nos fazer questionar até que ponto aquilo que consideramos absolutamente óbvio é uma característica da própria realidade ou apenas uma característica da maneira como aprendemos a percebê-la.
E esse questionamento não termina nos olhos. Ele chega à nossa maneira de viver.
Quando falamos em dualidade e não dualidade, muitas pessoas imaginam uma espécie de salto gigantesco entre dois extremos. De um lado, o ser humano encarnado vivendo nesta dimensão. Do outro, Deus, a Fonte, o Absoluto, a Unidade. Como se não existisse absolutamente nada entre uma experiência e outra.
Mas existe uma enorme gama de experiências, níveis de percepção e estados de consciência entre a identificação absoluta com o corpo e a experiência da Unidade. Uma pessoa pode começar acreditando que é apenas matéria e, depois, perceber-se como uma consciência experimentando temporariamente através de um corpo. Pode vivenciar fenômenos mediúnicos, experiências fora do corpo e estados ampliados de consciência. Pode perceber outras dimensões, interagir com outras consciências e descobrir formas de organização da existência que ultrapassam enormemente aquilo que conhecia.
Tudo isso representa uma expansão gigantesca da percepção. Mas existe aqui uma questão importante: sair do materialismo não significa sair automaticamente da dualidade.
Podemos ampliar indefinidamente o cenário da existência e continuar interpretando tudo a partir da separação. Podemos povoar o universo com espíritos, mestres, consciências, hierarquias, dimensões e civilizações inteiras e continuar imaginando cada elemento como uma realidade fundamentalmente isolada das demais.
A decoração mudou. A casa ficou muito maior. Mas a estrutura do pensamento pode continuar exatamente a mesma.
E aqui surge uma distinção fundamental. A não dualidade não precisa negar a multiplicidade. Reconhecer diferentes pessoas, consciências, perspectivas, dimensões ou experiências não significa necessariamente afirmar que elas estejam absolutamente separadas.
As ondas de um oceano podem ser diferentes. Uma é maior, outra é menor. Uma surge aqui, outra, alguns quilômetros adiante. Podemos observá-las, distingui-las e até dar nomes a elas. Mas quantas deixaram de ser oceano?
Talvez a dualidade não esteja simplesmente no fato de percebermos os muitos, mas em interpretarmos os muitos como fundamentalmente separados. Os muitos não precisam desaparecer para que o Um seja reconhecido.
E, se isso vale para nossa percepção dos objetos, dos seres e das dimensões, talvez também seja interessante observar o que fazemos com o conhecimento.
Ao longo da história, grandes filósofos, místicos, mestres e investigadores da consciência tentaram compreender a natureza da realidade. Estudaram, observaram, questionaram, aprenderam com aqueles que vieram antes deles e, em muitos casos, foram além.
A sabedoria perene que atravessou séculos e civilizações constitui um patrimônio extraordinário da humanidade. Ignorar aquilo que grandes consciências descobriram antes de nós seria como decidir estudar astronomia começando novamente pela dúvida sobre a existência das estrelas. Não precisamos reinventar tudo.
Mas existe uma armadilha bastante sutil no outro extremo.
Podemos estudar profundamente aqueles que romperam os limites da percepção de sua época e, sem perceber, transformar suas descobertas em novos limites para a nossa própria percepção.
E talvez valha a pergunta: em que momento honrar os grandes mestres passou a significar que devemos parar exatamente onde eles pararam?
Eles também tiveram mestres, referências e tradições. Estudaram mapas construídos por outros investigadores. Mas, em algum momento, precisaram olhar para a própria Realidade, observar, questionar e investigar.
Talvez uma das formas mais sofisticadas de condicionamento seja justamente aquela construída com excelentes livros, grandes mestres e conceitos profundos, porque, nesse caso, é muito mais difícil perceber que ainda estamos condicionados.
Quanto mais estudamos, maior pode ser nossa capacidade de compreender a realidade. Mas, se não houver abertura, maior também pode se tornar nossa capacidade de explicar por que tudo aquilo que não cabe no nosso sistema de referências deve estar errado.
É o paradoxo do estudioso.
A REALIDADE ESTÁ FRAGMENTADA OU É ASSIM QUE APRENDEMOS A ENXERGÁ-LA?
Olhe ao seu redor por alguns segundos. Provavelmente você verá uma parede, uma cadeira, uma janela, uma árvore, talvez outra pessoa. Tudo parece perfeitamente separado. A cadeira termina onde começa o chão. A árvore termina onde começa o céu. Seu corpo termina na pele e, aparentemente, todo o restante do universo começa logo depois dela.
Parece bastante óbvio. Talvez óbvio até demais.
Desde que nascemos, experimentamos a realidade dessa maneira. Sentimos as “bordas” do próprio corpo, olhamos ao redor e vemos objetos com contornos definidos, aprendemos a dar nomes a cada coisa e, antes mesmo de percebermos, o mundo está perfeitamente organizado em bilhões de partes: eu, você, árvore, pedra, planeta, espírito, matéria, Deus.
É uma maneira extremamente eficiente de navegar pela realidade. Seria bastante complicado perguntar onde deixaram “aquela manifestação temporária da matéria que utilizamos para sentar” toda vez que quiséssemos encontrar uma cadeira.
O problema, portanto, não está em nomear, distinguir ou organizar a experiência. O problema começa quando esquecemos que fomos nós que fizemos os recortes.
Nossa atenção funciona como uma espécie de holofote. Diante de uma realidade imensamente complexa, ela seleciona alguma coisa e a coloca em destaque. A consciência focaliza, a percepção destaca, a mente recorta e a linguagem nomeia. Então acontece algo curioso: passamos a acreditar que a própria realidade está fragmentada exatamente da mesma maneira que nossos conceitos.
Imagine uma pirâmide. Podemos observá-la de frente, depois de outro lado. Podemos olhar para a base, para o topo ou concentrar toda a nossa atenção em uma única pedra. No instante em que olhamos para essa pedra, todo o restante da pirâmide passa para o fundo da nossa percepção. Podemos estudá-la, medi-la, fotografá-la e até dar um número a ela. Mas em que momento ela deixou de fazer parte da pirâmide?
Nunca.
Nossa atenção apenas destacou uma parte do conjunto.
Aquilo que parece separado pode estar apenas sendo percebido separadamente.
Talvez essa seja uma das ideias mais importantes para começarmos a compreender a dualidade. A consciência focaliza, a percepção destaca, a mente recorta e a linguagem nomeia. Tudo isso é necessário para vivermos e compreendermos a experiência. O equívoco começa quando confundimos esses recortes com fragmentações reais da própria Realidade.
Olhe para uma árvore. Agora olhe para uma folha. Depois para uma nervura daquela folha e, em seguida, para uma gota de água sobre ela. Em cada momento, parece que estamos observando “uma coisa”. Mas quem determinou exatamente onde uma coisa termina e a outra começa? A realidade fez essa divisão ou nossa percepção, auxiliada pela mente e pela linguagem?
Isso não significa que a árvore não exista, que a folha seja imaginária ou que devamos abandonar os nomes e passar o restante da vida apontando silenciosamente para as coisas. Significa apenas reconhecer uma diferença fundamental: distinguir não é necessariamente separar.
E nossa própria experiência física torna essa compreensão bastante difícil. Sentimos nosso corpo como uma unidade aparentemente isolada. Eu sinto minhas mãos, meus pés, minha pele. Você sente os seus. Visualmente, enxergamos corpos e objetos delimitados por contornos. Tudo isso produz uma experiência extremamente convincente de separação.
Mas nossos sentidos não nos apresentam a totalidade da realidade. Eles captam determinadas informações, dentro de determinados limites, e nosso cérebro organiza essas informações de maneira que possamos funcionar no mundo. Nós não vemos simplesmente “tudo o que existe”. Vemos aquilo que nosso sistema perceptivo consegue captar, selecionar, organizar e interpretar.
E é aqui que a conversa começa a ficar realmente interessante.
Porque, às vezes, passamos anos tentando encontrar a resposta certa...
...para uma pergunta completamente errada.
Assê
Quer se aprofundar ainda mais? Descubra meus outros conteúdos e projetos gratuitos aqui: https://linktr.ee/Samantha.Concolino.Asse
O PODER DAS PERGUNTAS CERTAS
Se você convive com uma criança pequena, já deve ter vivido esta cena.
Ela pergunta por que o céu é azul. Você responde. Cinco segundos depois vem outra: "Mas por quê?" Você explica de novo. "Tá... mas por quê?" Em poucos minutos, você já está questionando toda a sua formação escolar e talvez até a origem do universo.
É curioso observar que as crianças fazem perguntas para descobrir. Os adultos, muitas vezes, fazem perguntas para confirmar. Parece um detalhe sem importância, mas essa pequena mudança altera completamente a forma como enxergamos a realidade.
Imagine alguém que acabou de sair de uma reunião no trabalho. No caminho para casa, começa a pensar: "Será que meu chefe não gosta de mim?" A pergunta foi feita, e a mente entra imediatamente em ação. Ela abre seus arquivos, revisita reuniões antigas, recupera comentários, expressões faciais, e-mails, mensagens... e, em poucos minutos, constrói uma bela apresentação de PowerPoint provando que, sim, existem fortes indícios de que o chefe realmente não gosta dela.
Agora imagine que a pergunta tivesse sido outra: "Será que estou interpretando corretamente essa situação?" Curiosamente, a investigação muda completamente. Os fatos continuam exatamente os mesmos. Quem mudou foi o investigador.
É curioso como raramente percebemos que a pergunta funciona como um farol. Ela não ilumina toda a paisagem. Ilumina apenas a direção para onde foi apontada.
Se você perguntar: "Por que as pessoas são tão egoístas?", sua mente começará imediatamente a colecionar exemplos de egoísmo. Mas, se perguntar: "Em quais momentos as pessoas costumam ser generosas?", ela encontrará evidências disso também. O mundo não mudou. Você apenas virou o farol para outro lado.
Talvez por isso duas pessoas possam viver na mesma cidade, trabalhar na mesma empresa e até frequentar os mesmos lugares, mas terem impressões completamente diferentes da vida. Uma pergunta diariamente: "Por que tudo dá errado para mim?" A outra costuma perguntar: "O que esta situação está tentando me mostrar?" Nenhuma delas está mentindo. Cada uma está apenas alimentando um tipo diferente de investigação.
O mais curioso é que fazemos isso sem perceber. Depois de uma crítica, perguntamos: "O que há de errado comigo?" Depois de um relacionamento que termina: "Como pude ser tão ingênuo?" Depois de um erro: "Por que eu estrago tudo?" Perceba que essas perguntas já carregam uma conclusão escondida. Elas não nasceram da curiosidade. Nasceram de uma sentença que procura provas para justificar a si mesma.
É como um advogado que inicia o julgamento com o veredito pronto e passa o restante do tempo apenas selecionando as evidências que lhe interessam.
Talvez por isso existam perguntas que aprisionam e perguntas que libertam. Não porque tragam respostas diferentes, mas porque ampliam o campo da percepção.
Em vez de perguntar: "Quem está errado?", talvez seja mais interessante perguntar: "O que cada um está enxergando que o outro ainda não conseguiu ver?" Em vez de: "Como faço isso parar?", talvez: "O que esta experiência está me ensinando que eu ainda resisto em aprender?" Em vez de: "Quem tem razão?", talvez: "Existe uma forma de olhar para isso que ainda não considerei?"
Perceba como a qualidade da resposta muda completamente quando muda a qualidade da pergunta.
Acho curioso que passemos tantos anos na escola aprendendo a responder perguntas. Decoramos fórmulas, datas, conceitos e definições. Mas quase ninguém nos ensina a arte de fazer boas perguntas. E talvez seja justamente aí que nasce boa parte da sabedoria.
Porque respostas costumam encerrar uma investigação. Boas perguntas fazem a realidade se expandir.
Talvez seja por isso que algumas das maiores descobertas da humanidade começaram com alguém que teve a coragem de perguntar algo que ninguém havia perguntado antes. E talvez as maiores descobertas da nossa própria vida também não dependam das respostas que estamos procurando.
Talvez dependam da disposição de abandonar perguntas antigas.
Quanto mais observo o comportamento humano, mais tenho a impressão de que a maioria das conversas não é uma troca de ideias. É uma negociação de identidades. Cada pessoa chega tentando convencer a outra de que a história que conta sobre si mesma é verdadeira.
Talvez seja por isso que tanta gente diga: "Eu só queria que me compreendessem."
Mas será que é isso mesmo?
Ou será que, muitas vezes, o que buscamos não é compreensão, mas confirmação? Confirmação de que estamos certos. De que somos a vítima. De que fomos injustiçados. De que nossa versão dos fatos é a correta.
Porque, quando alguém confirma a história que contamos sobre nós mesmos, sentimos um enorme alívio. Mas existe um detalhe curioso: alívio não é a mesma coisa que lucidez.
Às vezes, a conversa que mais nos transforma não é aquela em que alguém confirma quem acreditamos ser. É aquela em que, pela primeira vez, alguém nos ajuda a perceber que talvez essa história também possa ser revista.
Assê
Quer se aprofundar ainda mais? Descubra meus outros conteúdos e projetos gratuitos aqui: https://linktr.ee/Samantha.Concolino.Asse
O PROBLEMA DE QUERER SER COMPREENDIDO ANTES DE COMPREENDER
Existe uma cena que acontece todos os dias e, curiosamente, quase ninguém percebe. (Nem nós na maioria das vezes...)
Alguém começa a contar uma situação. Pode ser um problema no trabalho, uma discussão em casa ou algo que simplesmente o deixou feliz. Enquanto ainda está na terceira frase, quem está ouvindo já faz um leve movimento com a cabeça, como quem diz: "Entendi."
O detalhe é que, quase sempre, ainda não entendeu. A mente apenas reconheceu um padrão. É como se tivesse aberto uma gaveta onde está escrito: "Ah... já sei onde isso vai dar." Pronto. A conversa deixa de ser sobre aquela pessoa. Agora passa a ser sobre a interpretação que fizemos dela.
Acho fascinante a velocidade com que nosso cérebro faz isso. Ele escuta três frases e, em poucos segundos, já produziu uma minissérie completa, com narrador, trilha sonora, entrevistas exclusivas e uma conclusão que parece absolutamente óbvia. O Oscar vem logo depois.
Seria fácil achar graça disso se acontecesse apenas com os outros. Mas fazemos exatamente a mesma coisa. Enquanto alguém fala, nossa mente continua trabalhando sem parar. Ela compara aquela história com alguma experiência parecida, procura uma solução, prepara uma resposta, organiza argumentos e, às vezes, até imagina como a conversa vai terminar. A pessoa ainda está contando o que aconteceu e nós já estamos escrevendo o último capítulo.
É curioso porque, se alguém perguntasse naquele momento se estávamos ouvindo, provavelmente responderíamos que sim. E não estaríamos mentindo. Só esqueceríamos de mencionar um pequeno detalhe: estávamos ouvindo para responder, não para compreender.
Talvez seja por isso que tantas conversas terminem exatamente onde começaram.
Pense em uma discussão de casal. Um diz: "Você nunca me escuta." O outro responde imediatamente: "Claro que escuto! Você que está exagerando." Percebe a ironia? A frase "você nunca me escuta" acabou de ser respondida... sem ter sido realmente ouvida.
Ou então aquele velho clássico do WhatsApp. Uma pessoa envia um áudio de quatro minutos. A outra responde com um áudio de seis. Curiosamente, os dois falaram bastante. Mas, no fim, nenhum dos dois sentiu que foi compreendido. É quase como assistir a dois comentaristas de TV narrando jogos diferentes usando o mesmo microfone.
Talvez o mais interessante seja perceber que isso raramente acontece por falta de educação. Acontece porque entramos nas conversas carregando uma necessidade silenciosa: queremos ser compreendidos. Até aí, tudo bem. Isso é profundamente humano.
O problema começa quando essa necessidade se torna mais importante do que a curiosidade. A partir daí, deixamos de entrar numa conversa para descobrir alguma coisa. Entramos para defender alguma coisa.
E acho que é justamente aqui que mora o verdadeiro mecanismo.
Talvez nossa necessidade de sermos compreendidos nem seja, de fato, sobre comunicação. Talvez seja sobre identidade.
Quando alguém questiona uma opinião nossa, a sensação costuma ser desproporcional. Não parece que uma ideia foi colocada em dúvida. Parece que fomos nós. Como se nossa mente confundisse o que pensamos com aquilo que somos. E, quando a identidade entra na conversa, a curiosidade costuma sair discretamente pela porta dos fundos.
Porque compreender passa a representar um risco. E se a outra pessoa estiver vendo algo que eu ainda não vi? E se eu precisar mudar de ideia? E se a história que conto sobre mim mesmo não for tão sólida quanto imagino?
Talvez seja por isso que algumas pessoas sejam tão agradáveis de conversar. Não necessariamente porque tenham respostas brilhantes. Mas porque, perto delas, acontece uma sensação rara: você não precisa disputar espaço para existir dentro da conversa. Elas fazem perguntas sem já trazer o gabarito, ouvem sem ficar ansiosas pelo momento de responder e têm uma característica cada vez mais incomum: conseguem sair de uma conversa mais interessadas na realidade do outro do que em confirmar a própria.
O NARRADOR DA SUA CABEÇA ESTÁ DIZENDO A VERDADE?
É curioso observar como muitas pessoas passam boa parte da vida acompanhadas por alguém que nunca foi convidado para a conversa.
Não é um amigo, um familiar ou um colega de trabalho.
É o narrador interno.
Aquela voz que comenta tudo o que acontece, interpreta intenções, prevê desfechos, explica comportamentos alheios e constrói histórias inteiras a partir de meia dúzia de informações.
Você manda uma mensagem e a pessoa demora para responder.
O fato é simples: ela ainda não respondeu.
Mas, em questão de segundos, o narrador já escreveu um roteiro completo.
"Ela está me ignorando." "Falei alguma coisa errada." "Ela não gostou." "Tem alguma coisa acontecendo."
Enquanto isso, a pessoa talvez esteja dirigindo, trabalhando ou apenas tenha esquecido o celular em outro cômodo.
É curioso perceber que grande parte do sofrimento humano nasce justamente nesse espaço entre os fatos e a interpretação dos fatos. Muitas vezes não reagimos ao que aconteceu. Reagimos à história que contamos sobre o que aconteceu.
Alguém passa por você na rua e não cumprimenta.
O fato: a pessoa passou e não cumprimentou.
A interpretação: "Tem alguma coisa errada."
Dias depois você descobre que ela estava distraída, preocupada com um problema ou simplesmente não viu você.
O acontecimento era um. A narrativa criada era outra.
O narrador raramente trabalha com a informação completa. Ele trabalha com fragmentos. E, como não gosta de espaços em branco, trata de preenchê-los rapidamente.
O mais interessante é que quase nunca percebemos isso acontecendo. Temos a sensação de estar vendo a realidade como ela é, quando muitas vezes estamos vendo uma mistura de realidade, memória, expectativas, medos e suposições.
Talvez por isso duas pessoas consigam viver exatamente a mesma situação e chegar a conclusões completamente diferentes. Uma vê uma oportunidade. Outra vê uma ameaça. Uma interpreta uma crítica como rejeição. Outra interpreta como aprendizado.
O acontecimento é o mesmo.
O narrador é que muda.
E não, o problema não é a existência desse narrador. Ele tem sua utilidade. Ajuda a organizar experiências, planejar o futuro, aprender com erros e dar sentido ao que vivemos.
A dificuldade começa quando esquecemos que ele é apenas um comentarista e passamos a tratá-lo como autoridade máxima sobre a realidade.
Se fosse contratado como jornalista, provavelmente seria demitido na primeira semana. Publica especulações como fatos, adivinha intenções sem consultar os envolvidos, prevê desastres que nunca acontecem e tem uma impressionante capacidade de transformar acontecimentos comuns em notícias urgentes.
Ainda assim, milhões de pessoas acreditam nele sem questionamento.
Talvez a lucidez tenha menos relação com silenciar essa voz e mais relação com desenvolver o hábito de investigá-la.
"Isso realmente aconteceu ou é apenas a minha interpretação?" "Eu sei disso ou estou supondo?" "Estou olhando para os fatos ou para a história que contei sobre eles?"
São perguntas simples, mas que costumam abrir espaço para algo raro nos dias atuais: enxergar a realidade antes que a mente termine de editá-la.
Porque nem tudo o que passa pela nossa cabeça é verdade.
E talvez uma das habilidades mais valiosas que podemos desenvolver seja justamente esta: aprender a distinguir os fatos das narrativas que construímos sobre eles.
Assê
Quer se aprofundar ainda mais? Descubra meus outros conteúdos e projetos gratuitos aqui: https://linktr.ee/Samantha.Concolino.Asse
